Em uma época em que a moda brasileira ainda buscava espaço internacional, um estilista nascido em Uberaba construiu um ateliê capaz de produzir cerca de 300 vestidos por mês, empregou aproximadamente 150 pessoas e levou suas criações até os Estados Unidos. O nome por trás dessa operação era Marcos Vinícius Resende Gonçalves, o Markito, personagem que Belo Horizonte vai revisitar a partir de 25 de setembro.
A exposição “Markito: Cintilações da Noite”, no Museu da Moda de Belo Horizonte, recupera roupas, fotografias, documentos e objetos ligados ao estilista mineiro. Entre os materiais estão registros de Gal Costa, além de dois figurinos criados para Ney Matogrosso em 1982.
A mostra é gratuita, mas a história que ela recupera ultrapassa o calendário cultural. Markito saiu de Minas Gerais, transformou brilho, sensualidade e vida noturna em negócio e construiu, antes dos 31 anos, uma marca com escala pouco comum para a alta-costura brasileira daquele período.
Do interior de Minas para a noite brasileira
Markito nasceu em Uberaba em 1952 e começou a desenhar ainda jovem. Aos 18 anos, mudou-se para São Paulo, trabalhou em ateliê e depois desenvolveu as próprias peças, criando uma assinatura associada a paetês, franjas, bordados, fendas, decotes e tecidos fluidos.
O momento histórico ajudou a tornar essa linguagem reconhecível. No fim dos anos 1970 e início dos 1980, a cultura disco transformava boates e pistas de dança em espaços de comportamento, música e moda. Markito percebeu esse ambiente e criou roupas que não tentavam passar despercebidas.
Segundo a Prefeitura de Belo Horizonte, sua produção ganhou projeção nacional e internacional justamente nesse período. O estilista passou uma temporada em Nova York e exportou criações para os Estados Unidos, fazendo com que um nome surgido em Uberaba circulasse muito além do mercado mineiro.
300 vestidos por mês mostram o tamanho da marca
Um dos números mais surpreendentes recuperados pela exposição ajuda a dimensionar o negócio. Markito chegou a manter um ateliê com cerca de 150 funcionários e produzir aproximadamente 300 vestidos por mês.
Para uma marca associada a peças de festa, bordados, brilho e trabalho manual, a escala chama atenção. Parte dessa produção também mantinha conexão direta com Minas: o estilista valorizava bordadeiras de Uberaba, incorporando saberes artesanais de sua cidade natal a uma operação de projeção nacional.
A trajetória coloca Markito em um ponto importante da moda brasileira. Ele atuou na passagem de um mercado dominado por grandes costureiros para uma lógica em que marcas, coleções e prêt-à-porter ganhavam espaço, sem abandonar a teatralidade das peças feitas para festas, palcos e celebridades.
Uma reportagem do Correio Braziliense sobre a trajetória do estilista recupera justamente o peso de Markito na era disco brasileira e mostra como suas roupas se tornaram parte da imagem pública de alguns dos artistas mais conhecidos do período.
Gal Costa, Ney Matogrosso e a roupa como espetáculo
A relação com as celebridades ajuda a explicar por que sua produção acabou se confundindo com a cultura brasileira daquele momento. Gal Costa aparece entre as artistas que vestiram suas criações, enquanto Ney Matogrosso recebeu peças desenvolvidas especificamente para sua atuação nos palcos.
A exposição do Mumo recupera dois figurinos criados para Ney em 1982, além de peças da coleção “The Party Must Go On”, de 1980, e um vestido de franjas inspirado em “O Grande Gatsby”. Fotografias, documentos e registros da imprensa ajudam a reconstruir não apenas as roupas, mas também o ambiente cultural em que elas foram produzidas.
Essa conexão entre moda e espetáculo ajuda a compreender por que Markito não pode ser resumido apenas a um estilista de vestidos de festa. Suas peças participavam da construção visual de artistas em um período em que corpo, performance, música e vida noturna passavam por profundas transformações.
Markito também olhava além dos vestidos de festa
Outro núcleo da mostra revela um aspecto menos conhecido de sua trajetória. Em 1975, ele criou a Markito Lipstick, marca voltada a um público jovem e que propunha maneiras de vestir menos delimitadas pelas distinções tradicionais de gênero.
O detalhe amplia a leitura sobre um criador frequentemente resumido a paetês e glamour. Sua obra dialogava com uma época marcada por mudanças nos costumes, expansão da vida noturna e novas formas de apresentar o corpo e a identidade.
Markito morreu em Nova York em 4 de junho de 1983, aos 31 anos. A curta duração de sua carreira contrasta com o tamanho da estrutura que conseguiu construir e com o alcance cultural que suas roupas conquistaram em poucos anos.
“Markito: Cintilações da Noite” abre em 25 de setembro, às 10h, no Museu da Moda, na Rua da Bahia, no Centro de Belo Horizonte, com entrada gratuita. Mais de quatro décadas depois, a exposição devolve escala a uma história que vai além da nostalgia: antes dos 31 anos, um mineiro de Uberaba já comandava 150 funcionários, colocava 300 vestidos por mês no mercado, exportava para os Estados Unidos e ajudava a construir a imagem de alguns dos artistas mais reconhecidos do país.


