São Paulo concentra restaurantes premiados e cozinhas de praticamente todas as partes do mundo. A Bahia possui alguns dos pratos mais reconhecíveis do país e uma culinária fortemente ligada à própria identidade cultural. Mesmo assim, quando brasileiros são questionados sobre para onde viajariam pensando em comer bem, quem aparece na frente é Minas Gerais.
Um levantamento nacional sobre gastronomia e viagens colocou Minas na liderança, citada por 44% dos entrevistados.
São Paulo ficou em segundo, com 37%, e a Bahia apareceu logo depois, com 35%. Rio de Janeiro, com 21%, e Rio Grande do Sul, com 17%, completam as cinco primeiras posições.
O resultado talvez diga algo mais interessante do que simplesmente qual estado “tem a melhor comida”.
Ele mostra o quanto Minas conseguiu transformar sua culinária em motivo para viajar.
Minas não depende de um único prato
Curiosamente, o prato individual mais citado no levantamento não é mineiro.
O acarajé aparece em primeiro lugar entre as comidas consideradas indispensáveis em uma viagem pelo Brasil, com 20% das menções. Na sequência estão moqueca, tacacá e feijoada.
O pão de queijo aparece apenas na quinta posição, com 9%. Existe aí um contraste importante: Minas vence como destino mesmo sem possuir o prato mais lembrado.
Isso sugere que o reconhecimento mineiro está menos concentrado em uma receita específica e mais associado a um conjunto: pão de queijo, feijão tropeiro, frango com quiabo, torresmo, doces, cafés e, principalmente, queijos artesanais formam uma identidade reconhecida para além das fronteiras estaduais.
A pesquisa ouviu 500 brasileiros maiores de 18 anos, de todas as regiões do país e com acesso à internet.
O queijo mineiro já ganhou uma vitrine mundial

Um dos produtos que melhor representa essa força passou, recentemente, a ter também reconhecimento internacional.
Os modos tradicionais de produção do Queijo Minas Artesanal foram inscritos pela Unesco, em 2024, na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
A própria Unesco destaca que a produção utiliza conhecimentos transmitidos entre gerações, frequentemente em pequenas propriedades familiares, e ajuda a sustentar economias locais. Cerca de 9 mil famílias dependem diretamente dessa atividade em Minas.
A tradição não impede que os produtos mineiros também disputem espaço em concursos contemporâneos.
Em junho deste ano, o Moon BH mostrou que um queijo produzido no Sul de Minas foi eleito o melhor de uma competição internacional que reuniu aproximadamente mil amostras de 19 países.
A comida, portanto, funciona simultaneamente como tradição cultural, produto econômico e atração turística.
Tiradentes mostra como comida pode virar destino

Poucos lugares demonstram essa transformação de maneira tão clara quanto Tiradentes.
A cidade histórica construiu uma imagem turística que hoje vai muito além das igrejas, casarões coloniais e ruas de pedra.
O Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes chegou à 29ª edição em 2026 reunindo mais de 40 chefs, restaurantes, aulas, experiências e atividades espalhadas pela cidade.
Neste ano, o evento colocou a relação entre Minas e Portugal no centro da programação, mostrando como técnicas e ingredientes portugueses acabaram adaptados ao longo de séculos até se tornarem parte do repertório considerado tipicamente mineiro.
O Moon BH já mostrou também como Tiradentes transformou gastronomia, cultura e festivais em uma engrenagem econômica que movimenta pousadas, restaurantes, produtores, artesãos e serviços.
É uma diferença importante em relação à ideia de apenas possuir “bons restaurantes”.
A gastronomia passa a organizar a própria experiência de viagem.
Minas ainda aparece como uma gastronomia subestimada
O levantamento traz outro dado aparentemente contraditório.
Ao mesmo tempo em que Minas é o estado mais lembrado para comer bem, 23% dos entrevistados também consideram sua gastronomia surpreendente, mas ainda subestimada pelos turistas.
Nesse quesito, somente a Bahia aparece à frente, com 24%. Ou seja: a comida mineira já tem enorme reconhecimento, mas parte do público ainda acredita que existe mais para descobrir.
E talvez esse seja justamente um dos motivos de Minas superar destinos com oferta gastronômica internacionalmente conhecida.
A cozinha mineira não está restrita a uma capital ou a meia dúzia de restaurantes famosos. Ela aparece em BH, nas cidades históricas, no Serro, na Canastra, no Sul de Minas, em mercados, pequenas propriedades, festivais e mesas familiares.
Por isso, o dado de 44% não precisa ser lido como um campeonato subjetivo para definir qual estado cozinha melhor.
Ele revela algo mais concreto: quando comida e viagem aparecem na mesma pergunta, Minas é o primeiro lugar que mais brasileiros lembram.


