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BH multiplica por 100 atendimento especializado a mulheres; o que mudou?

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Em apenas dois anos, o número de mulheres atendidas pelo grupamento especializado da Guarda Municipal de Belo Horizonte saiu de quatro para 422. O salto superior a 100 vezes chama atenção, mas conta uma história diferente de uma simples explosão nos registros de violência: a capital passou a estruturar um modelo no qual a proteção continua depois da ocorrência e da concessão de uma medida protetiva.

Entre 1º de janeiro e 31 de agosto de 2026, o Grupamento Especializado de Proteção à Mulher, o Gepam, acompanhou 422 vítimas. No mesmo intervalo de 2025 haviam sido 238 atendimentos e, em 2024, apenas quatro.

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A diferença mostra principalmente a ampliação da atuação especializada. Hoje, as equipes não aparecem apenas quando uma situação de violência já está acontecendo. Há acompanhamento por telefone, visitas presenciais, fiscalização das medidas determinadas pela Justiça e contato também com os agressores.

Atendimento cresceu 77% apenas no último ano

Quando a comparação é feita com 2025, período em que o serviço já estava mais estruturado, o crescimento continua expressivo.

Os atendimentos passaram de 238 para 422, aumento de aproximadamente 77% em um ano. Além disso, de janeiro a agosto de 2026, a Guarda registrou 64 casos de descumprimento de medidas protetivas, realizou 55 conduções coercitivas e participou de 23 ações de busca relacionadas ao enfrentamento da violência contra mulheres.

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Os dados divulgados pela Prefeitura de Belo Horizonte revelam ainda um aspecto importante sobre o que acontece depois que a Justiça determina que um agressor mantenha distância da vítima.

Somente durante agosto, seis homens foram presos por descumprirem medidas protetivas. Em todos os casos, guardas que faziam visitas de monitoramento encontraram os agressores nas proximidades das residências das mulheres, apesar da proibição judicial de aproximação.

Ou seja, as prisões não ocorreram necessariamente porque uma nova agressão havia sido denunciada naquele momento. Elas aconteceram porque havia uma estrutura fazendo acompanhamento preventivo.

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Proteção não termina depois da denúncia

Essa é justamente a principal mudança representada pelo programa Proteja Mulher.

Depois de uma ocorrência, a Guarda entra em contato com a vítima para verificar se os procedimentos necessários foram realizados e apresentar os serviços disponíveis. Caso existam outras necessidades, a mulher pode ser encaminhada para a rede municipal de proteção.

Quando há medida protetiva de urgência, o acompanhamento se torna mais frequente. As visitas presenciais são definidas de acordo com a classificação de risco de cada situação e, entre uma visita e outra, também podem ocorrer contatos telefônicos.

Em média, o acompanhamento dura 90 dias, embora possa ser encerrado antes caso a mulher solicite.

A iniciativa se soma a outras políticas voltadas à segurança e à autonomia de mulheres vítimas de violência na capital. Entre elas estão programas habitacionais específicos e, mais recentemente, o Abrigo Amigo, que começou a instalar pontos de ônibus com videochamada para oferecer suporte principalmente a mulheres que se sintam vulneráveis durante a noite.

Número não significa que violência cresceu 100 vezes

O salto de quatro para 422 atendimentos precisa ser interpretado com cuidado.

Os dados divulgados pelo município contabilizam o trabalho realizado pelo Gepam e não representam o número total de casos de violência contra a mulher registrados em Belo Horizonte. Por isso, não é possível concluir a partir deles que a violência tenha aumentado na mesma proporção.

Na prática, a expansão indica que mais mulheres passaram a entrar no acompanhamento especializado e que a Guarda ampliou a capacidade de permanecer presente depois do primeiro atendimento.

Isso fica especialmente evidente nos casos de descumprimento de medidas protetivas. Uma decisão judicial determina o afastamento, mas seu efeito depende também da capacidade de identificar quando a ordem está sendo ignorada.

É nesse intervalo entre a concessão da medida e uma possível nova ocorrência que o acompanhamento do Gepam tenta atuar.

Como pedir ajuda em Belo Horizonte

Mulheres em situação de emergência podem acionar a Guarda Municipal pelo telefone 153. O Ligue 180, serviço nacional de orientação e denúncia de violência contra a mulher, funciona 24 horas por dia.

O Gepam também mantém atendimento para orientações pelo telefone e WhatsApp (31) 98404-2677, das 7h30 às 17h30.

Em 2026, a Lei Maria da Penha completa 20 anos. Em Belo Horizonte, os números dos últimos dois anos mostram que uma parte importante do desafio passou a ser justamente aquilo que ocorre depois que a mulher consegue romper a primeira barreira e pedir ajuda: garantir que a proteção não termine quando a ocorrência é registrada.

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Anna Millard
Anna Millard
Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto. Tem experiência em jornalismo esportivo, cidades e economia. Passou pelo setor público em assessoria de comunicação e assessoria de imprensa.