A Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) oficializou nesta terça-feira o programa BH Cidade Viva. A iniciativa reúne ações de adaptação climática que vão da ampliação de áreas verdes à criação de estruturas capazes de absorver água da chuva. O lançamento aconteceu com a assinatura de um decreto municipal e a formalização de uma parceria internacional para viabilizar os investimentos.
BH enfrenta há anos os efeitos mais duros das mudanças climáticas. Chuvas intensas provocam alagamentos recorrentes em bairros como Venda Nova e a região da Pampulha. O calor extremo, por sua vez, tem se tornado rotina no verão mineiro. Diante desse cenário, a prefeitura decidiu apostar em soluções baseadas na natureza para complementar as obras tradicionais de drenagem.
O que muda com o BH Cidade Viva
O programa foi formalizado com a assinatura de um Memorando de Entendimento entre a PBH e o Cities Finance Facility (CFF), iniciativa internacional que ajuda cidades de países em desenvolvimento a captar recursos para projetos climáticos. A parceria garantiu cerca de R$ 16 milhões destinados a estudos, projetos e modelagens das intervenções futuras.
Esse dinheiro não financia obras prontas. Ele paga o planejamento técnico que vai orientar onde e como cada intervenção será construída nos próximos anos.
Entre as ações previstas estão corredores ecológicos, parques ciliares e jardins de chuva. A prefeitura também planeja instalar sistemas de captação de água em escolas e unidades de saúde. Há ainda a recuperação de áreas verdes já degradadas e a ampliação da arborização em espaços públicos.
Jardins de chuva e escolas mais permeáveis

Uma das apostas centrais do programa são os chamados jardins de chuva. Essas estruturas funcionam como esponjas naturais. Elas absorvem parte do volume de água durante temporais, reduzindo a pressão sobre bueiros e galerias tradicionais.
O primeiro jardim de chuva do programa foi inaugurado na Escola Municipal Professor Moacyr Andrade, em Venda Nova, região historicamente castigada por enchentes. A escolha do local não é casual. Venda Nova concentra parte significativa dos registros de alagamento na capital mineira.
A prefeitura também prevê transformar pátios escolares em áreas permeáveis. A ideia é que o próprio chão das escolas ajude a infiltrar água no solo, em vez de escoar direto para as ruas. Rotas mais arborizadas para pedestres e ciclistas completam o pacote de intervenções.
Planejamento urbano ganha nova lógica
A subsecretária de Planejamento Urbano da PBH, Renata Herculano, afirmou que os impactos das mudanças climáticas já fazem parte da realidade da população. Segundo ela, esse cenário exige uma forma diferente de pensar a cidade, com menos concreto e mais espaço para a água circular naturalmente.
Essa fala resume a mudança de filosofia por trás do BH Cidade Viva. Durante décadas, o crescimento urbano de BH avançou sobre córregos e áreas verdes, impermeabilizando o solo em ritmo acelerado. Agora a prefeitura tenta reverter parte desse processo, ainda que de forma pontual.
O programa também prevê a participação de comunidades locais na implantação e manutenção das ações. Isso significa que moradores de regiões como Venda Nova podem se envolver diretamente no cuidado com jardins de chuva e áreas verdes recém-criadas perto de suas casas.
Parte de uma estratégia maior
O BH Cidade Viva não nasce isolado. Ele se soma a outras frentes que a PBH vem articulando para lidar com o clima, como o Projeto Transformador Cidade Jardim e o programa BH Resiliente, que já recebeu R$ 500 milhões em financiamento do BNDES. Juntas, essas iniciativas miram um objetivo comum: reduzir enchentes, amenizar ilhas de calor e diminuir riscos de deslizamento nas regiões mais vulneráveis da cidade.
Boa parte dos impactos climáticos em BH, aliás, se concentra em áreas específicas. A bacia do Ribeirão do Onça responde por mais de 60% dos problemas hidrológicos da capital, enquanto os desastres geológicos predominam nas regiões de encosta. Essa distribuição desigual explica por que o poder público vem priorizando intervenções descentralizadas, em vez de apostar só em grandes obras de drenagem no centro da cidade.
A aposta em soluções baseadas na natureza também aparece em outras capitais brasileiras que enfrentam desafios parecidos. Ainda assim, o ritmo de implementação costuma ser o ponto mais sensível desse tipo de programa. Anunciar um decreto é rápido. Transformar pátios escolares e recuperar nascentes em toda a cidade é um trabalho de anos, que depende de continuidade orçamentária e de gestões futuras.
Por enquanto, o BH Cidade Viva sai do papel com um projeto concreto em Venda Nova e a promessa de expandir jardins de chuva, corredores ecológicos e áreas permeáveis por outras regionais. Segundo o Estado de Minas, a expectativa da prefeitura é que as medidas ajudem a reduzir alagamentos e aumentar a capacidade da capital de se adaptar aos efeitos das mudanças climáticas nas próximas décadas.


