O Inhotim chega aos 20 anos com uma agenda que vai além das novas exposições e da celebração institucional. Em 2026, o museu de Brumadinho decidiu olhar para o próprio acervo como ponto de partida para uma formação nacional de professores, estudantes de licenciatura e educadores.
A 14ª edição do Descentralizando o Acesso, programa de educação do Instituto Inhotim, tem como tema “Aprender com os acervos: coleções contemporâneas e perguntas para o presente”. Além disso, a iniciativa é realizada pela Diretoria de Educação e Território do museu em parceria com a Faculdade de Educação da UFMG.
A proposta parte de uma ideia simples, mas pouco explorada fora dos museus: uma coleção não é apenas um conjunto de obras preservadas. Sendo assim, ela também guarda escolhas, ausências, disputas, memórias e formas de contar o mundo. Para professores, esse material pode virar ferramenta de aula, pesquisa e debate.
O projeto começou com um curso de extensão online, com 300 vagas, voltado a professores e estudantes de licenciatura de todo o Brasil. A formação reuniu nomes como Júlia Rebouças, diretora artística do Inhotim; Wayne Modest, do Wereldmuseum, na Holanda; Pollyana Quintella, da Pinacoteca de São Paulo; Clarissa Diniz, da UFRJ; Guilherme Marcondes, também da UFRJ; e Diane Lima, curadora do Pavilhão do Brasil na 61ª Bienal de Veneza.
Os encontros trataram de temas como justiça epistêmica, artistas mulheres, memória, negritude, representatividade e os modos como acervos contemporâneos podem ajudar a formular perguntas sobre o presente.
Acervo vira ferramenta de ensino

O Inhotim tem escala rara para esse tipo de projeto. O instituto reúne arte contemporânea e jardim botânico em Brumadinho, com cerca de 1.862 obras de mais de 280 artistas, de 43 países, além de mais de 4,3 mil espécies botânicas. Esses números ajudam a explicar por que o museu pode ser lido também como território educativo. Não apenas como destino turístico.
Nesta edição, o Descentralizando o Acesso tenta aproximar esse patrimônio da escola. A ideia não é levar professores a decorar informações sobre artistas ou obras, mas estimular novas formas de usar coleções em sala de aula.
João Paulo Andrade, gerente de Educação Continuada do Inhotim, resume a intenção do projeto ao defender que as coleções sejam vistas como “estruturas públicas de debate”. Para ele, o comissionamento de professores é uma etapa decisiva. Isso acontece porque reconhece, remunera e cria condições para a pesquisa docente.
Esse é um ponto importante. O professor não aparece apenas como visitante ou multiplicador de conteúdo pronto. Ele passa a ser também autor de reflexão sobre o acervo, a partir da experiência com estudantes e do contato direto com o museu.
O que acontece até outubro
Depois da fase online, o programa avança para as imersões pedagógicas presenciais no Inhotim, marcadas para os dias 20 e 27 de junho. Nessa etapa, o programa reúne professores da educação básica em percursos mediados pelo acervo artístico e botânico. Além disso, ocorrem encontros com profissionais do museu e atividades voltadas à observação, à interpretação crítica e à criação de perguntas a partir das obras.
Entre 5 de agosto e 30 de outubro, 100 grupos escolares devem visitar o Inhotim acompanhados dos professores participantes da formação. As visitas não serão apenas passeios guiados. A proposta é que os estudantes formulem hipóteses, discutam imagens, percebam narrativas e construam suas próprias leituras sobre arte, memória, natureza e sociedade.
A última etapa será a residência editorial, entre 4 de julho e 1º de agosto. Dez professores serão selecionados para desenvolver pesquisas inspiradas no percurso formativo. O material produzido deve integrar uma publicação prevista para outubro.
O projeto também se conecta ao aniversário de 20 anos do Inhotim, que abriu ao público em 2006 e se consolidou como um dos principais museus a céu aberto do mundo. Em vez de olhar apenas para trás, a instituição usa a data para perguntar como seu acervo pode circular mais. Também pretende ensinar melhor e dialogar com escolas de diferentes regiões.





