HomeEsportesAtléticoAtlético desembolsará muito menos pela Arena MRV do que está sendo dito

Atlético desembolsará muito menos pela Arena MRV do que está sendo dito

Vozes ferozes estão alardeando em Belo Horizonte que a Arena MRV, novo estádio do Atlético, custará quase R$ 1 bilhão de reais e que a culpa, em maior parte, seria da prefeitura, encabeçada pelo ex-prefeito Alexandre Kalil.

As acusações de que Kalil agiu contra o andamento da construção não são novas. Como repercutido pelo Moon BH em 2020, o colunista do jornal O Globo Lauro Jardim comentou sobre os “bastidores azedos” para que a PBH liberasse a construção.

Mas em uma série de entrevistas de dirigentes do Atlético a diferentes veículos de imprensa, fica claro que a maior parte do custo adicional é decorrente de decisões do próprio clube. Além disso, o Galo precisará pagar, de fato, cerca de R$ 300 milhões. Entenda:

Imprecisão: Obra salta de R$ 410 mi para R$ 760 mi

De acordo com o colunista Cosme Rímoli, do R7, o então presidente do Atlético Sergio Sette Camara disse em entrevista para a Rádio Itatiaia que o custo do estádio passaria de R$ 410 milhões para R$ 760 mi. Ele deu a entender que a Prefeitura de Belo Horizonte seria a responsável, por causa das contrapartidas. Em resposta ao colunista, a gestão municipal negou a informação.

Ainda segundo Cosme Rímoli, o Atlético entrou em contato com ele e esclareceu que a fala de Sette Camara havia sido mal interpretada. O custo adicional seria de R$ 140 milhões, e não R$ 350 mi.

Como a Arena MRV pretende faturar cerca de R$ 100 milhões por ano e como as obras atrasaram 2 anos por causa da pandemia, estes R$ 200 milhões foram incluídos como se fossem um custo adicional. Portanto o valor até este ponto, com as contrapartidas, ficariam em R$ 550 milhões.

Mas custo de R$ 410 milhões não era real

De acordo com o CEO da Arena MRV e do Atlético, Bruno Muzzi, a primeira estimativa de R$ 410 milhões era de um projeto básico, menor e mais cru. Em entrevista a um podcast do Superesportes, ele detalhou:

“Naquele momento, os projetos eram conceituais. Era uma arena de 41 mil lugares. Com o passar do processo de licenciamento e até chegar no início das obras, esses 410 viraram R$ 650 milhões. E por que essa diferença nesse valor? Porque a gente tem correção financeira… A inflação foi muito maior. A gente tem os projetos que foram chegando num nível executivo, de forma que a gente pudesse de fato orçar. Nós tivemos diversas modificações de projetos com melhorias. Muitas melhorias”, disse.

Aço foi quase todo comprado de uma vez

Na mesma entrevista, Muzzi detalhou que como comprou quase todo o aço da Arena de uma vez, garantiu economia: “Comprei 12 mil toneladas com o primeiro dinheiro que eu recebi da Multiplan. Comprei o aço praticamente inteiro da obra, pagando R$ 2,75 pelo kg. Hoje, isso chegou a bater R$ 9. Sairia de R$ 36 milhões para R$ 108 milhões”.

Correções no projeto elevaram para R$ 650 mi

Como o projeto inicial de R$ 410 mi era cru, muitas melhorias foram feitas para entregar mais conforto, além de 5 mil novos lugares. “Somando inflação, correção contratual, as mudanças que fizemos no projeto para que ele melhorasse, as exigências legais, chegamos nesse valor de R$ 650 milhões”.

R$ 100 milhões, uma escolha nossa

A obra passou a custar, então, R$ 750 milhões por causa de uma decisão da gestão, de construir um estádio com muito mais tecnologia do que o previsto. “Você adiciona R$ 100 milhões, que foi uma escolha nossa, da jornada de tecnologia. Não dava para entregar uma arena em 2023 sem explorar isso. Senão, iríamos entregar um estádio dos anos 2000: sem conectividade, sem wifi, sem tela, sem nada. No projeto conceitual, não havia nada disso”, completou Muzzi ainda ao podcast do Superesportes.

Chegando na conta final: Então chegamos a R$ 750 milhões por atualizações do projeto, melhorias tecnológicas, inflação e um upgrade tecnológico, mais os R$ 150 milhões de contrapartidas legais e “temos R$ 50 milhões de outros gastos, que são processos de licenciamento, desapropriações para obras viárias”, disse Muzzi. Este total representa, então, o custo total de R$ 950 milhões da Arena MRV.

“Um estádio extremamente barato”

Em entrevista ao site ge, o diretor financeiro da Arena MRV, Thiago Maia, explicou que quase todos os custos serão pagos com receitas do próprio estádio. Ele também falou sobre os custos pelas mudanças no projeto e disse que, mesmo com o aumento, ainda está barato.

“O projeto foi totalmente modificado. Houve essa mudança de capacidade. Eram 40 camarotes, viraram 112. O pessoal do Allianz Parque prestou consultoria de eventos para a gente, modificaram o projeto, alargamos a boca de entrada para caminhão rodar o estádio. A parte da acústica, da cobertura. É um outro projeto”, avaliou.

Ele confirmou os novos custos: “Tudo isso que falei ficou na casa dos R$ 650 milhões. É o preço final até o fim da obra. Está ótimo. Se dividir pelo número de cadeiras, fica um estádio extremamente barato”.

Arena MRV poderia ter ficado livre de custos adicionais

Na mesma entrevista, ele contou que foi assinado um contrato de PMG (Preço Máximo Garantido). “Tudo que ficar acima do valor, a construtora arca”, explicou sobre como funciona o acordo. Só que segundo ele, este contrato só foi assinado em 2022, com vigência à partir de abril de 2021:

“Como previa o contrato com a Racional? Era licitação, iniciaram a obra e falava assim: um ano após o início da obra, já com os projetos executivos finalizados, a gente fecha o PMG. Ficamos negociando, acabou finalizando a assinatura final do PMG esse ano, mas referente a abril de 2021”.

Estádio já gerou R$ 620 milhões

Ainda na entrevista para o ge, Thiago Maia, explicou que o próprio estádio gerou arrecadação de mais de R$ 620 milhões: “R$ 50 milhões de naming rights, que viraram R$ 70 milhões. E R$ 100 milhões de cadeiras que hoje viraram cerca de R$ 450 milhões. A arena foi bem-sucedida. Na busca por patrocínio estamos chegando perto dos R$ 100 milhões. Ainda temos estacionamento, alimentos/bebidas, o BH Festival, o próprio mural”.

A este valor, adicionam-se R$ 290 milhões da venda da primeira parte do Diamond. Totalizam R$ 910 milhões. “A nossa ideia é que case com os R$ 950 milhões”, segundo Maia.

Desde valor, é preciso considerar os juros, uma vez que os valores precisam ser antecipados (cadeiras cativas puderam ser pagas em até 72x, por exemplo). Portanto o clube terá de desembolsar, de fato, algo perto dos R$ 300 milhões para a construção do estádio mais moderno da América do Sul. Prova da gestão de excelência dos 4R’s, que conseguiram tirar leite de pedra para conseguir pagar os custos adicionais que apareceram.

A expectativa é que a Arena MRV gere renda anual de R$ 100 milhões para o clube até 2029, quando o valor deve passar para R$ 200 mi por ano.

Comparações com Corinthians e Palmeiras não são precisas

É preciso tomar cuidado ao comparar as contrapartidas exigidas do Atlético com as do Corinthians e Palmeiras, já que eles estavam sob a Lei nº 12.350/2010 – Recopa (Regime especial de tributação para construção, ampliação, reforma ou modernização de estádios de futebol).

Por causa da Copa do Mundo de 2014, construção e reformas de estádios de futebol receberam desoneração fiscal como forma de incentivo. Segundo o hoje extinto Ministério do Esporte, estádios que sediaram a Copa receberam até R$ 350 milhões em isenções em função do Recopa. O Mineirão foi beneficiário para custear sua reforma.

Fhilipe Pelájjio
Fhilipe Pelájjiohttps://moonbh.com.br/fhilipe-pelajjio/
Publicitário, jornalista e pós-graduado em marketing, é editor do Moon BH e do Jornal Aqui de BH e Brasília. Já foi editor do Bhaz, tem passagem pela Itatiaia e parcerias com R7, Correio Braziliense e Estado de Minas. Especialista na cobertura de futebol, com foco em Atlético, Cruzeiro, Palmeiras e Flamengo há mais de 10 anos.