Antes de chegar à Câmara dos Deputados, Delegada Ione Barbosa (PL) transformou uma dificuldade que encontrava dentro da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de Juiz de Fora em um projeto concreto: um lugar para onde a vítima pudesse ir depois de denunciar o agressor.
Assim nasceu a Casa Mulher Segura, espaço destinado a acolher temporariamente mulheres vítimas de violência doméstica e seus filhos, além de oferecer atendimento psicológico, jurídico e social.
A iniciativa é o primeiro capítulo de uma série do Moon BH sobre candidatos mineiros que construíram parte de sua trajetória política em políticas públicas destinadas às mulheres. O objetivo é levantar ações verificáveis, projetos implantados e resultados, independentemente da posição partidária de cada candidato.
Ione disputa em 2026 um novo mandato de deputada federal por Minas Gerais, agora pelo PL. Ela chegou à Câmara em 2022, depois de receber 52.630 votos, e tem como principal base eleitoral Juiz de Fora.
Delegada Ione via o problema de perto, na delegacia
Ione é formada em Direito, mestre em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Juiz de Fora e exerceu o cargo de delegada da Polícia Civil. Durante cerca de dois anos, esteve à frente da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher de Juiz de Fora.
Segundo relato feito pela própria parlamentar na Câmara, havia uma situação recorrente: a mulher denunciava o agressor, conseguia iniciar o procedimento policial ou solicitar uma medida protetiva, mas não tinha um lugar seguro para passar as horas ou dias seguintes com os filhos.
Em 2021, Ione fundou a Associação de Defesa da Mulher, da Infância, da Adolescência e do Idoso, a Adcuidar. No ano seguinte, o projeto ganhou uma sede de acolhimento.
A Casa Mulher Segura foi inaugurada em junho de 2022, em Juiz de Fora, em iniciativa da Adcuidar com parceria e financiamento do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. O atendimento foi concebido para receber gratuitamente mulheres em situação de violência e também os filhos que precisassem deixar a residência com elas.
O modelo é diferente de simplesmente registrar uma ocorrência. Na unidade, a vítima pode receber atendimento psicológico, orientação jurídica e social, auxílio para solicitar medida protetiva e encaminhamento para outros serviços. O projeto também incorporou cursos profissionalizantes e parcerias voltadas à inserção das mulheres no mercado de trabalho.
Mais de 700 atendimentos no primeiro ano
Um dado ajuda a dimensionar a demanda. Ao completar seu primeiro ano de funcionamento, em 2023, a Casa Mulher Segura já havia realizado mais de 700 atendimentos em Juiz de Fora. Segundo responsáveis pela instituição ouvidos à época, o serviço recebia também mulheres de municípios da região.
O projeto não funciona apenas como abrigo de longa permanência. A lógica é oferecer uma resposta emergencial à vítima que precisa sair imediatamente de casa e ainda não conseguiu chegar a uma estrutura definitiva de proteção.
O atendimento aos filhos também virou uma preocupação legislativa de Ione. Na Câmara, a deputada passou a defender que políticas contra a violência doméstica considerem o impacto sobre as crianças que presenciam as agressões. A própria Câmara registrou, já no início de seu mandato, que a proteção aos filhos de vítimas estava entre as pautas trabalhadas pela parlamentar.
Experiência virou proposta nacional contra feminicídio
Em 2026, parte dessa experiência reapareceu na atuação parlamentar. Em julho, a Comissão de Segurança Pública aprovou um substitutivo relatado por Ione criando um Sistema Nacional de Prevenção e Combate ao Feminicídio. O texto prevê integração entre segurança, Justiça, saúde e assistência social e cria um alerta para situações de risco grave, com acionamento policial previsto em até uma hora em determinados casos.
A mesma comissão também aprovou outro texto relatado pela mineira que prevê escolta policial para a mulher comparecer à delegacia quando houver descumprimento de medida protetiva, mediante avaliação individual de risco. As propostas ainda precisam concluir sua tramitação e, portanto, não são leis em vigor.
O tema permanece especialmente relevante em Minas. Dados analisados pelo Ministério Público mineiro mostram que o estado registrou 177 feminicídios consumados em 2025, alta de 4,4% em relação ao ano anterior. Minas concentrou 11,3% das vítimas do país e ficou em segundo lugar nacional em números absolutos.


