O governador de Minas Gerais, Mateus Simões, participou nesta terça-feira, 23 de junho, de uma série de encontros durante a Semana de Ação Climática de Londres. Entre eles, esteve em uma mesa reservada com o secretário-geral da ONU, António Guterres, organizada pela Bloomberg Philanthropies dentro do Local Climate Action Summit. A missão conta também com o secretário de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Lyssandro Norton. Dessa forma, posiciona Minas em um debate que mistura metas ambientais, disputa por investimentos em energia limpa e os desafios impostos pela expansão da inteligência artificial à infraestrutura global.
A London Climate Action Week 2026 reúne governos, empresas, instituições financeiras, organismos multilaterais e lideranças subnacionais entre as conferências climáticas da ONU. Para Minas, a presença no evento não é inédita. O Estado já havia sido convidado para a Climate Ambition Summit de Nova York, em 2023. No entanto, ela acontece em um momento em que o governo busca converter credenciais ambientais em atração de capital produtivo.
IA, data centers e energia limpa no centro da agenda
Um dos compromissos mais relevantes da viagem foi a participação no painel “Powering Progress: Climate Leadership in an Age of AI”. O painel foi dedicado aos impactos da inteligência artificial sobre consumo de energia, recursos hídricos e infraestrutura. Por isso, o tema tem relevância direta para Minas.
A expansão global da IA aumentou a demanda por data centers — estruturas que consomem grandes volumes de eletricidade e exigem estabilidade de rede. Estados que combinam oferta de energia limpa, licenciamento previsível e segurança hídrica passam a ter vantagem competitiva na atração desse tipo de investimento. É exatamente essa equação que o governo mineiro tentou apresentar em Londres.
Segundo a administração estadual, Minas já possui mais de 12 gigawatts de capacidade instalada em energia solar e vem ampliando frentes em bioenergia, biometano e outras fontes renováveis. Esse dado ajuda a entender por que o debate climático deixou de ser assunto restrito a secretarias de meio ambiente. Para um estado industrial, minerador, agropecuário e com ambição tecnológica, energia limpa passou a integrar a política de desenvolvimento econômico.
O que Minas apresentou como credencial

O Plano Estadual de Ação Climática, o Plac-MG, foi usado como principal referência da missão. O governo informou que 85% das 199 metas previstas no plano estão em execução ou concluídas. O número representa um argumento político relevante em um ambiente internacional onde a cobrança por execução substituiu a valorização de promessas.
O próprio Simões reconheceu esse deslocamento ao afirmar que o desafio atual é transformar compromissos em entregas concretas. Em eventos como o de Londres, governos que chegam apenas com metas futuras têm espaço menor do que aqueles que apresentam dados de implementação.
O governo também expôs iniciativas de digitalização da gestão ambiental, entre elas a modernização do Cadastro Ambiental Rural. Outro destaque foi o uso de inteligência artificial no licenciamento e no processamento de autos de infração. Além disso, houve a aplicação de blockchain na rastreabilidade da cadeia do carvão vegetal por meio do sistema MG Florestas. A tese central da apresentação mineira foi a de que inovação tecnológica e sustentabilidade podem funcionar de forma integrada.
Diálogos regionais e os desafios práticos do Estado
A agenda de Londres incluiu também participação no Under2 State and Regional Dialogues. Esse encontro é voltado a governos regionais para discutir instabilidade geopolítica, eventos climáticos extremos, mercados globais e eletrificação limpa.
Para Minas, esse debate tem efeitos diretos e conhecidos. O Estado convive com extremos climáticos recorrentes e pressão sobre recursos hídricos. Além disso, há risco em áreas urbanas consolidadas e necessidade de reduzir emissões sem paralisar cadeias econômicas relevantes como mineração, siderurgia, agroindústria e transporte. A tensão entre desenvolvimento e descarbonização não é retórica para Minas — é uma equação que os municípios e as empresas do Estado enfrentam na prática.
A comitiva participou ainda da abertura da exposição “Caatinga: Stitching Resilience”, ligada ao Brazil Creating Fashion for Tomorrow, plataforma de moda sustentável, biomateriais e economia criativa. A presença mineira em um evento de foco no semiárido sinaliza a tentativa do governo de associar sustentabilidade a cultura, inovação e novos mercados. Assim, amplia a narrativa além do recorte ambiental tradicional.
O que pode resultar da missão
A passagem por Londres não significa, por si só, acordos fechados ou investimentos confirmados. O efeito mais concreto da missão tende a aparecer depois. Ele se manifesta em cooperações técnicas, aproximação com fundos climáticos internacionais, interlocução com empresas e construção de reputação institucional junto a organismos multilaterais.
No encontro com Guterres, governadores e líderes regionais discutiram implementação climática nos territórios, financiamento, transição energética, adaptação e governança entre diferentes níveis de governo. A participação de Minas nessa mesa tem peso político porque coloca o Estado entre os governos subnacionais reconhecidos pelo sistema ONU como interlocutores relevantes na agenda climática.
A tese que o governo mineiro levou a Londres é clara: Minas pode ser, simultaneamente, estado industrial, produtor de energia limpa e laboratório de gestão ambiental digital. A validade dessa aposta, porém, depende de algo menos visível que painéis internacionais. Trata-se da capacidade de transformar energia, tecnologia e metas climáticas em projetos que alcancem municípios, empresas e cidadãos dentro do próprio Estado.





