Na política, como na física, a gravidade dos corpos maiores deforma o espaço ao seu redor. Em 2026, o Brasil vive o apogeu dessa distorção: a polarização entre o lulismo e o bolsonarismo deixou de ser uma disputa de projetos para tornar-se uma colisão de identidades. No epicentro dessa batida está Minas Gerais — o estado-pêndulo que, historicamente, decide quem sobe a rampa do Planalto.
A sucessão de Romeu Zema (Novo) não é mais um assunto paroquial. Ela tornou-se o laboratório onde se testa se a “terceira via” ainda respira ou se o centro-direita será, definitivamente, absorvido pela estética e pela fúria da direita identitária.
O Herdeiro e a Sombra do Clã
Romeu Zema caminha sobre o fio da navalha. De um lado, precisa garantir a continuidade de seu projeto com Mateus Simões (PSD); de outro, é pressionado a converter-se em um soldado de infantaria do bolsonarismo, possivelmente ocupando a vice na chapa presidencial de Flávio Bolsonaro (PL).
O alinhamento de Zema com Bolsonaro é pragmático, mas perigoso. Minas exige gestão, mas o bolsonarismo exige fidelidade tribal. O desafio de Simões é herdar a máquina estadual sem ser engolido pela radicalização que nomes como Nikolas Ferreira (PL) e Cleitinho Azevedo (Republicanos) impõem ao debate. Se a sucessão mineira virar um plebiscito sobre “quem é mais Bolsonaro”, a gestão técnica de Zema pode ser reduzida a uma nota de rodapé.
Lula e o Déficit de Palanque
Do outro lado da trincheira, o PT de Lula enfrenta um dilema de escassez. A unção de Marília Campos ao Senado foi o primeiro passo para estancar a sangria, mas falta ao lulismo mineiro um “Cavalo de Troia” — um nome que fale com o interior conservador e o agronegócio mineiro.
A dependência de Rodrigo Pacheco (PSD) revela a fragilidade estratégica da esquerda. Lula sabe que sem um palanque robusto em Minas, sua reeleição torna-se uma escalada no Everest sem oxigênio. O “Contrato Pacheco” não é ideológico; é um seguro de sobrevivência. Se o PT não conseguir nacionalizar o palanque mineiro através de uma figura de centro, corre o risco de virar um satélite de sua própria irrelevância regional.
O Símbolo contra a Estrutura: O Fenômeno Nikolas
O protagonismo de Nikolas Ferreira redefine a métrica do sucesso. Sua recente “Caminhada pela Liberdade” provou que a direita não precisa mais dos coronéis do interior para mobilizar massas. Nikolas opera na liturgia do gesto, pautando o país com narrativas emocionais. Ele é, hoje, o vigia do portal: ninguém na direita mineira entra em 2026 sem o seu “visto” — ou sem o seu silêncio.
A fragmentação política em Minas é um sintoma da nacionalização precoce do debate. Com o PL e o PSD em rota de colisão por palanques presidenciais, a centro-direita mineira corre o risco de cometer o erro clássico: lutar entre si enquanto o adversário se reorganiza no silêncio.