Em Belo Horizonte, o “relógio moral” da cidade costuma ser pontual: quando a coleta de lixo para, a paciência do contribuinte apodrece na mesma velocidade dos dejetos nas calçadas. A paralisação dos garis, iniciada nesta segunda-feira (19), não é apenas um imbróglio trabalhista; é a radiografia de uma gestão que, na ausência do titular, perdeu o compasso da fiscalização.
Enquanto o prefeito Álvaro Damião percorre o Velho Continente em um merecido — porém simbolicamente custoso — descanso, o presidente da Câmara e prefeito interino, Juliano Lopes, descobriu que a sede na Afonso Pena não aceita o “modo espera”. A crise da Sistemma Serviços Urbanos explodiu como um estilhaço de má gestão contratual, expondo que a zeladoria de BH é, hoje, o seu mais sensível calcanhar de Aquiles.
O “Modo Interino” e a Realidade das Ruas
Juliano Lopes, um veterano das substituições, viu sua quinta ou sexta interinidade ser batizada pelo mau cheiro. O problema não é técnico, é de comando. A pauta dos trabalhadores — que envolve o atraso sistêmico do FGTS, a suspensão do plano de saúde e a carência de equipamentos básicos — não brotou do nada. É fruto de uma “fiscalização frouxa” que permitiu que uma empresa prestadora de serviço essencial operasse no limite da precarização.
O cidadão do bairro São Geraldo ou do Coração Eucarístico não quer saber de planilhas de adimplência da SLU. Ele enxerga o lixo e sente a ausência da autoridade. Para Lopes, a crise é um teste de sobrevivência política: se não agir com o rigor que o cargo exige, seu nome ficará associado não à estabilidade institucional, mas à inércia diante do cao
O Diagnóstico Necessário
Para sair deste labirinto, Juliano Lopes precisa abandonar a retórica do interino e assumir a postura do magistrado. É urgente:
- A Intervenção Técnica: Auditar imediatamente o cumprimento da cláusula trabalhista pela Sistemma.
- O Plano de Contingência: BH não pode esperar até 30 de janeiro. O carnaval bate à porta e o verão não perdoa o lixo acumulado.
- A Transparência Real: Explicar por que a fiscalização da SLU permitiu que caminhões em condições precárias seguissem em rota.
A greve dos garis é o sintoma, mas a doença é a fragilidade do modelo de gestão da zeladoria. Juliano Lopes tem a caneta, mas o tempo corre contra ele. Se o lixo permanecer nas ruas, a crise deixará de ser da Sistemma para se tornar, definitivamente, o selo de uma prefeitura que se perdeu entre as postagens de redes sociais e a crueza da calçada. Em BH, o poder, tal qual o lixo, se não for bem gerido, acaba por contaminar todo o ambiente.