Rubens Menin e Casimiro Miguel chegaram à disputa com a Globo por portas diferentes. Um veio de Belo Horizonte, do mercado empresarial, da CNN Brasil e da Itatiaia. O outro saiu do streaming, do humor esportivo e das lives no YouTube.
Cada um à sua maneira, os dois ajudaram a tirar a maior empresa de mídia do país de uma zona de conforto histórica. Depois de 61 anos, a emissora acostumada a liderar em qualquer coisa e ditar tendências, precisou se mexer, e rápido.
A pressão de Menin aparece no jornalismo. A de Casimiro, no esporte. Juntas, elas empurraram a Globo para terrenos onde ela antes não precisava correr tanto.
A disputa de Rubens Menin no jornalismo
A pressão de Rubens Menin se concentra na guerra por audiência entre canais de notícias. Em entrevista à Folha de S.Paulo, João Vitor Xavier, CEO da CNN Brasil e vice-presidente da Itatiaia, afirmou que a CNN já é o canal de notícias mais visto do Brasil quando a métrica é alcance.
Entre janeiro e junho, segundo dados do Ibope enviados por ele ao jornal, a CNN alcançou 26,79 milhões de indivíduos únicos na TV paga, contra 25,61 milhões da GloboNews. A vantagem foi de 4,43%.
O argumento de Xavier ataca o modelo de medição. Para ele, os institutos precisam se modernizar porque o público saiu das “caixinhas” instaladas nas casas dos painelistas, e deixar de fora smart TVs e YouTube distorce o tamanho real das marcas jornalísticas.
A régua que define quem lidera
A GloboNews tem contra-argumento. No recorte de média diária ponderada, que também mede o tempo de permanência do público, o canal apareceu 97% acima da CNN no primeiro trimestre.
Ou seja, a disputa é sobre a régua. A Globo tem razão quando fala em fidelidade e permanência. A CNN tem razão quando aponta alcance e circulação. São métricas diferentes que produzem vencedores diferentes.
Para a Globo, isso muda o jogo. A GloboNews não disputa mais apenas com outros canais pagos. Enfrenta uma CNN que quer virar rede aberta, cortes em redes sociais, canais ao vivo no YouTube e marcas que medem sucesso por presença distribuída, não só por ponto de audiência.
Todavia, a mudança está acontecendo: a Globo News precisou lançar produtos no Youtube, onde a CNN Brasil se tornou um dos canais mais fortes do jornalismo. Não se assuste se, em breve, o canal de notícias global passar a transmitir seu conteúdo em tempo real por lá. São milhões de views todos os dias desperdiçados.
Também envolve cultura. A TV paga só lhe permite assistir no aparelho de TV, geralmente em casa. O Youtube, na palma da mão, em qualquer lugar, pelo celular.
O golpe de Casimiro e da CazéTV, no futebol

A CazéTV talvez seja o caso mais claro de deslocamento cultural. Durante décadas, Copa do Mundo no Brasil significava Globo. O jogo estava na TV aberta, o narrador era o da Globo, a conversa nacional começava ali. Em 2026, a Globo ainda é o centro, mas deixou de ser o caminho único. A CazéTV, criada a partir da força de Casimiro Miguel e da LiveMode, virou a única plataforma a transmitir gratuitamente todos os 104 jogos da Copa pelo YouTube.
Em Brasil x Japão, chegou a 21,3 milhões de dispositivos conectados simultaneamente, marca que a Reuters tratou como uma das maiores lives da história do YouTube. Pela primeira vez, apenas metade dos jogos da Copa está sendo transmitida pela TV tradicional no Brasil.
A brecha que a própria Globo abriu
A entrada da CazéTV tem origem em uma decisão estratégica da própria Globo. Durante a pandemia, a emissora renegociou os direitos da Copa com a Fifa, manteve os direitos de televisão e abriu mão da exclusividade digital. A avaliação de especialistas ouvidos pela Reuters é que esse movimento permitiu à CazéTV e à LiveMode ocuparem um espaço que parecia naturalmente reservado à Globo.
A reação veio com a ge TV, lançada em setembro de 2025 como canal digital gratuito de entretenimento esportivo. Há uma nuance: na Copa de 2026, por questão de direitos, a ge TV não transmite os jogos pelo YouTube. Os 32 jogos do Mundial exibidos pela marca vão de graça pelo Globoplay, operadoras e TVs conectadas.
A resposta com outro produto
A Globo percebeu que não bastava levar a transmissão tradicional para outra tela. Era preciso criar outro produto, com outro ritmo e outro elenco. Fred Bruno, Mariana Spinelli, Jorge Iggor, Bruno Formiga e outros nomes da ge TV não foram escolhidos para reproduzir a solenidade da TV aberta. Foram chamados para falar com um público que se acostumou a ver esporte como conversa, resenha, react e comunidade.
Mesmo com a ge TV como resposta, a Globo segue líder na Copa. Até a parcial citada pela Reuters, concentrava 86% do público do torneio. A liderança permanece, mas a exclusividade acabou. Por anos, a Globo apostou na força da própria casa e guardou seu valor dentro do próprio ecossistema. O público, porém, mudou antes de a liderança acabar.


