A troca de acusações públicas entre Estadão e Metrópoles escancarou a fragilidade financeira e a zona cinzenta de financiamento da imprensa nacional. Enquanto o jornal paulista revelou repasses atípicos de R$ 27,2 milhões do extinto Banco Master ao portal de Brasília, a resposta expôs uma injeção de R$ 142,5 milhões de corporações no Estadão. O embate deixou de ser uma disputa de vaidade editorial para virar um raio-X de como o jornalismo sobrevive hoje.
O relatório do Coaf e os R$ 27 milhões do Metrópoles
A ofensiva começou quando o Estadão publicou detalhes de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre o fluxo de caixa do Metrópoles. O documento apontou que o Banco Master transferiu mais de R$ 27 milhões ao portal entre 2024 e 2025.
O alerta do órgão de controle ocorreu porque parte desse montante foi repassada quase imediatamente a outras companhias do grupo familiar do empresário Luiz Estevão, como Madison, Sense e Macondo, levantando suspeitas de benefício a terceiros.
O caso ganhou contornos mais sensíveis devido ao destino da instituição financeira. Conforme o histórico oficial de resoluções do Banco Central do Brasil, o Banco Master foi liquidado pelo órgão regulador em novembro de 2025, em meio a amplas investigações. O Metrópoles, em sua defesa, alega que os pagamentos são lícitos e referentes ao patrocínio do Will Bank e a naming rights nas transmissões da Série D do Brasileirão.
O contra-ataque: Bancos e corporações no Estadão

A reação do Metrópoles veio com uma reportagem revelando a engenharia financeira que sustenta o Grupo Estado. Uma captação de R$ 142,5 milhões em 2024 ajudou a reestruturar as dívidas do centenário jornal paulista.
A operação de socorro financeiro foi dividida em duas frentes de grande peso corporativo:
- R$ 45 milhões em debêntures: Compradas diretamente pelos gigantes Itaú, Bradesco e Santander.
- R$ 97,5 milhões via fundo de investimento: Uma segunda rodada que atraiu grupos de peso, como Cosan, Hapvida, Votorantim, Ultra, Unipar, Pátria, Galápagos, JHSF e Cutrale.
O Metrópoles acusou o Estadão de ceder influência editorial e assentos no conselho aos investidores — fato exemplificado pela nomeação de Marco Bologna (sócio da Galápagos) ao conselho de administração.
A linha tênue entre crédito e controle editorial
A divergência central é definir onde termina o empréstimo e começa a ingerência. Os bancos (Itaú, Bradesco e Santander) negaram qualquer interferência na linha editorial do Estadão, classificando o movimento como uma operação típica de reestruturação de dívida com condições normais de mercado.
No fim, a “rinha” de publicações revela muito mais sobre o modelo de negócios do que sobre o jornalismo em si. Com o Estadão acumulando prejuízos na casa de R$ 16,8 milhões em 2025, e o Metrópoles com o caixa ligado a um banco recém-liquidado, a disputa por credibilidade passou a exigir também transparência sobre a origem do dinheiro que paga a conta das redações.