Quando Flamengo e Independiente del Valle entrarem em campo nesta quinta-feira (10), em Quito, dois dos projetos mais competitivos da América do Sul estarão frente a frente. O ponto mais curioso é que eles foram construídos por caminhos quase opostos.
O Rubro-Negro utilizou sua enorme capacidade de gerar receita para montar um dos elencos mais caros do continente. O Moon BH mostrou recentemente que aproximadamente R$ 1,13 bilhão foi destinado a contratações em cerca de um ano e meio, movimento que permitiu ao clube acumular opções de alto nível em praticamente todas as posições.
O Del Valle construiu poder de outra maneira.
Em vez de tentar competir financeiramente pela contratação de estrelas prontas, o clube equatoriano passou anos investindo em categorias de base, estrutura, captação e formação. Desenvolve jogadores, utiliza parte deles profissionalmente e transforma vendas para mercados maiores em combustível para repetir o processo.
Hoje, esses dois modelos disputam a mesma vaga na semifinal da Libertadores.
O Del Valle transformou formação em modelo de negócio
A história recente do clube equatoriano ajuda a entender por que ele deixou de ser tratado como uma surpresa continental.
Uma reportagem do ge sobre a construção do projeto mostra como a instituição reorganizou sua estrutura ao redor da formação de atletas, ampliou investimentos em instalações e passou a utilizar a venda de jovens como elemento central de sustentabilidade.
O modelo produziu talentos negociados com alguns dos maiores mercados do planeta e permitiu ao Del Valle continuar competitivo mesmo depois de perder seus principais ativos.
Existe inclusive uma conexão direta com o atual elenco do Flamengo.
Gonzalo Plata, hoje atacante rubro-negro, passou pela formação do Independiente del Valle antes de iniciar sua trajetória europeia. O jogador que agora pertence ao projeto financeiramente mais poderoso do confronto é, em parte, produto da estrutura construída pelo adversário desta quinta-feira.
O Flamengo transformou receita em capacidade de escolher
O modelo brasileiro parte de outra vantagem competitiva.
Receitas de televisão, bilheteria, patrocínios, premiações, sócio-torcedor e transferências deram ao Flamengo uma capacidade de investimento que nenhum clube equatoriano consegue reproduzir atualmente.
Isso permite a Leonardo Jardim trabalhar com um grupo no qual jogadores de nível internacional disputam posição e no qual problemas identificados em uma janela podem ser atacados com novas contratações na seguinte.
Não existe, portanto, uma escolha simples entre “comprar” ou “formar”. O Flamengo também revela jogadores, enquanto o Del Valle contrata peças de fora. A diferença está no centro do modelo econômico de cada projeto.
Para o Rubro-Negro, contratar estrelas é possível porque o clube cresceu até produzir recursos suficientes para isso.
Para o Del Valle, formar estrelas tornou-se uma das maneiras de produzir os próprios recursos.
Os números de 2026 mostram que o projeto equatoriano não é apenas financeiro
Ser eficiente no mercado não seria suficiente para transformar o Del Valle em ameaça real ao Flamengo. O que muda a dimensão desta quinta-feira são os resultados esportivos.
De acordo com levantamento do UOL, a equipe chegou às quartas da Libertadores depois de conquistar 32 vitórias nos primeiros 40 jogos de 2026. Foram 91 gols marcados e aproveitamento de 82,5%, números que fazem desta a melhor temporada da história do projeto.
O Del Valle também abriu grande vantagem na competição nacional e avançou na Copa do Equador, além de chegar às quartas da Libertadores com uma campanha capaz de transformar o confronto com o Flamengo em algo muito mais equilibrado do que os orçamentos sugeririam.
Esse contraste talvez seja a melhor maneira de compreender o desafio rubro-negro.
Hoje, dinheiro e formação chegam ao mesmo lugar
O Flamengo entra na eliminatória com uma estrutura financeira que permite disputar jogadores no mercado europeu e manter um elenco profundamente valorizado. O Del Valle chega com um projeto que depende justamente de descobrir e desenvolver jogadores antes que clubes com essa capacidade financeira apareçam.
Um compra parte do talento já consolidado. O outro tenta produzi-lo antes do mercado.
Os dois caminhos possuem riscos. Gastar muito não garante encaixe esportivo, assim como formar grandes jogadores significa frequentemente perdê-los justamente quando atingem o melhor nível.
Mesmo assim, ambos conseguiram chegar às quartas de final da maior competição da América do Sul.
Por isso, reduzir o confronto desta quinta-feira à altitude de Quito deixa uma história muito mais interessante escondida. Flamengo e Independiente del Valle não colocam apenas dois times em campo. Colocam frente a frente duas respostas completamente diferentes para a mesma pergunta: como construir uma potência sul-americana em um continente onde o dinheiro e os melhores jogadores continuam sendo atraídos pela Europa?


