O Flamengo construiu nos últimos meses um dos projetos esportivos mais caros do futebol sul-americano. Sob a gestão de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, aproximadamente R$ 1,13 bilhão foram destinados a contratações em cerca de um ano e meio. Mesmo assim, depois da vitória por 3 a 0 sobre o Botafogo, Leonardo Jardim apontou um problema que nenhuma nova contratação consegue resolver: o campo onde esse elenco precisa jogar.
A crítica foi direcionada ao gramado do Maracanã.
“O gramado do Maracanã não está à altura do Flamengo”, afirmou o treinador depois do clássico de domingo (30). Jardim ainda deixou claro que não pretendia utilizar a condição do campo como justificativa para eventuais dificuldades da equipe.
A frase, porém, produz uma contradição interessante quando colocada ao lado do tamanho do investimento rubro-negro.
O Flamengo gastou para elevar o nível técnico do elenco, mas seu treinador considera que a principal casa da equipe não oferece uma superfície compatível com essa qualidade.
Flamengo passou de R$ 1 bilhão em contratações
Segundo levantamento publicado pelo UOL, a gestão Bap já movimentou aproximadamente R$ 1,13 bilhão em reforços desde o início do atual ciclo.
Somente na janela de janeiro de 2026, foram cerca de R$ 495 milhões.
O movimento trouxe jogadores de alto nível técnico e ampliou as alternativas de um grupo que já era considerado um dos mais fortes do continente. A profundidade ficou visível justamente contra o Botafogo, quando Jardim conseguiu alterar a equipe durante o segundo tempo e recuperar o controle de uma partida que havia começado a ficar mais desconfortável.
O Flamengo venceu por 3 a 0, com dois gols de Samuel Lino e outro de Carrascal. O resultado deixou a equipe novamente próxima do Palmeiras na corrida pelo Campeonato Brasileiro.
Por isso a reclamação sobre o campo chama tanta atenção. Ela não veio depois de uma derrota, nem como tentativa de explicar um tropeço. Surgiu justamente após uma vitória convincente.
Quanto melhor o elenco, mais o gramado importa

A condição do gramado não afeta apenas estética ou velocidade da bola. Para equipes que tentam controlar partidas por meio de circulação rápida, passes curtos e domínio técnico, pequenas irregularidades podem alterar o tempo necessário para dominar, passar ou conduzir.
O próprio Jardim explicou isso ao mencionar que a bola quica e exige adaptações dos jogadores.
Esse detalhe ganha relevância no Flamengo porque boa parte do investimento recente foi feita justamente em atletas capazes de decidir tecnicamente em espaços reduzidos. A lógica financeira do projeto procura aumentar a diferença de qualidade em relação aos adversários, mas um campo irregular tende a diminuir parte dessa vantagem ao tornar algumas ações menos previsíveis.
Existe, portanto, uma espécie de paradoxo: quanto mais caro e técnico se torna o elenco, maior pode ser a exigência sobre a estrutura utilizada por ele.
Problema aparece enquanto Flamengo ainda paga por reforços
A discussão também surge em um momento interessante fora das quatro linhas.
O Moon BH mostrou recentemente que o Flamengo ainda possui aproximadamente R$ 614,5 milhões em compromissos futuros relacionados a contratações. Isso não significa falta de capacidade financeira, mas mostra o tamanho da aposta realizada pela atual gestão na construção do elenco.
Ao mesmo tempo, o clube não possui controle exclusivo sobre todas as variáveis do Maracanã.
O Flamengo divide a utilização do estádio, enfrenta calendários de jogos e eventos e depende de uma estrutura cuja manutenção envolve questões diferentes da simples compra de jogadores.
Jardim levantou uma discussão maior que o gramado
A reclamação do treinador poderia ser tratada apenas como mais uma declaração pós-jogo. Quando colocada ao lado dos números do investimento, porém, ela revela outra história.
O Flamengo conseguiu gastar mais de R$ 1 bilhão para aumentar a qualidade disponível dentro das quatro linhas. Pode contratar atacantes, meias, defensores e jogadores capazes de elevar o nível competitivo do grupo.
Ainda assim, existe um componente básico do próprio jogo que dinheiro investido no elenco não resolve sozinho.
Para um clube que se posiciona esportiva e financeiramente entre os maiores do continente, a cobrança de Jardim sugere que a próxima diferença de nível talvez não precise estar vestindo a camisa do Flamengo. Pode estar literalmente debaixo dos pés dos jogadores.


