Quando Flamengo e Gerson estiverem novamente em lados opostos nesta quarta-feira (12), no Mineirão, haverá muito mais em jogo do que uma vaga nas quartas de final da Libertadores. O ex-capitão rubro-negro é hoje jogador do Cruzeiro, mas uma parte da relação entre ele e o antigo clube permanece aberta: 57 meses de um contrato de imagem que viraram uma cobrança de R$ 42,75 milhões na Justiça.
É justamente dessa conta que nasce um dos capítulos mais curiosos do confronto. Segundo o UOL, o Flamengo calcula que Gerson e a FGM Sports, empresa da qual o jogador é sócio com o pai, Marcão, devem ao clube o equivalente a todo o valor de direitos de imagem que ainda seria pago até o fim do vínculo firmado em 2025. A defesa do jogador contesta a cobrança.
Enquanto os advogados discutem o contrato fora de campo, Gerson terá a oportunidade de interferir diretamente no futuro esportivo do clube do qual foi capitão e ídolo.
Cruzeiro e Flamengo iniciam nesta quarta-feira, às 21h30, no Mineirão, a disputa por uma vaga nas quartas de final da Libertadores. O confronto de volta será no Maracanã.
Por que o Flamengo cobra exatamente R$ 42,75 milhões?
O valor não foi escolhido de forma aleatória. Em abril de 2025, Flamengo e Gerson assinaram uma renovação contratual válida até o fim de 2030. O acordo também envolvia direitos de imagem, pelos quais o jogador receberia R$ 750 mil mensais.
A passagem, porém, terminou apenas três meses depois.
Em julho daquele ano, o Zenit pagou os 25 milhões de euros previstos como multa rescisória, aproximadamente R$ 160 milhões na cotação utilizada à época, e levou o meio-campista para a Rússia. O Flamengo sustenta que a saída representou uma rescisão unilateral e cobra o que restava do contrato de imagem.
A matemática apresentada pelo clube é simples: R$ 750 mil multiplicados pelos 57 meses restantes do vínculo chegam aos R$ 42,75 milhões cobrados no processo.
É por isso que, embora Gerson tenha deixado o Flamengo em julho de 2025, o contrato que poderia mantê-lo financeiramente ligado ao clube até 2030 continua no centro da disputa.
Defesa de Gerson contesta versão do Flamengo
Os dois lados têm interpretações diferentes sobre o episódio.
A defesa de Gerson e da FGM Sports questionou a validade da cobrança e pediu acesso a documentos relativos à exploração comercial da imagem do jogador pelo Flamengo. Os representantes do atleta também fizeram críticas à conduta do clube no processo. O Flamengo rebate.
Em manifestação recente anexada ao processo, o clube afirmou possuir um relatório indicando mais de 30 utilizações da imagem de Gerson nas redes sociais durante um período de apenas 90 dias. A argumentação rubro-negra é de que o contrato concedia ao clube o direito de explorar a imagem, sem obrigá-lo a realizar um número mínimo de ativações.
Outro ponto de discussão envolve o documento apresentado na saída do jogador.
O Flamengo afirma que Gerson assinou voluntariamente um pedido de desligamento e sustenta que o próprio Marcão solicitou ao departamento de Recursos Humanos do clube o texto que posteriormente seria entregue assinado. A defesa do jogador também levantou questionamentos sobre essa documentação durante o processo.
A ação tramita na 25ª Vara Cível do Rio de Janeiro e foi apresentada no início de 2026.
De capitão a adversário em pouco mais de um ano

Gerson havia renovado com o Flamengo em abril de 2025. Naquele momento, recebeu valorização salarial e ampliou o contrato até 2030. Meses antes, seu pai e empresário havia feito cobranças públicas pela renovação, enquanto o presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, chegou a ironizar Marcão durante uma reunião com conselheiros.
Pouco depois da renovação, a multa para saída ao exterior foi reduzida de 200 milhões de euros para 25 milhões de euros. O Zenit pagou o valor em julho e encerrou a segunda passagem de Gerson pelo Flamengo.
A experiência na Rússia durou apenas um semestre.
Em janeiro de 2026, o Cruzeiro pagou 27 milhões de euros, cerca de R$ 168 milhões, mais até 3 milhões de euros em bônus para contratar o meio-campista. A operação o tornou, naquele momento, a contratação mais cara já realizada por um clube brasileiro.
Primeiro reencontro já teve clima pesado
Esta não será a primeira vez que Gerson enfrenta o Flamengo desde que voltou ao Brasil.
Cruzeiro e Flamengo se encontraram em março pelo Campeonato Brasileiro, no Maracanã, e o Rubro-Negro venceu por 3 a 1. Gerson recebeu vaias e xingamentos de parte da torcida flamenguista, enquanto Marcão precisou ser retirado de um setor do estádio após ser hostilizado.
Depois da partida, Gerson deixou o estádio incomodado e sinalizou que poderia revelar algumas “verdades” sobre sua saída do clube em outro momento. Até agora, essa manifestação mais detalhada não aconteceu.
Nesta quarta, porém, o cenário se inverte.
Desta vez Gerson estará em casa, diante da torcida do Cruzeiro e em uma eliminatória continental. E, diferentemente daquele encontro pelo Brasileirão, uma atuação decisiva pode atingir diretamente uma das maiores ambições do Flamengo na temporada.
Uma relação que acabou no futebol, mas não nos tribunais
É isso que torna o reencontro diferente.
Para o Flamengo, Gerson deixou de fazer parte do elenco há mais de um ano. Para o Cruzeiro, virou uma das peças mais caras e importantes do atual projeto esportivo. Mas, nos tribunais, uma relação contratual construída quando o volante ainda projetava permanecer no Rio de Janeiro até 2030 continua sendo discutida.
Os 57 meses usados pelo Flamengo para chegar aos R$ 42,75 milhões resumem bem essa contradição.
Nesta quarta, o clube reencontra um jogador que já vendeu, que já viu retornar ao Brasil por um rival e que agora pode ajudar a eliminá-lo da Libertadores. Fora das quatro linhas, entretanto, Flamengo e Gerson ainda estão longe de colocar um ponto final na própria história.


