Antes de Paquetá, havia Gerson. Por alguns dias de janeiro de 2026, o camisa 11 do Cruzeiro foi o detentor do título de maior contratação da história do futebol brasileiro. O Cruzeiro desembolsou 27 milhões de euros fixos mais 3 milhões em bônus ao Zenit para trazer o meia de volta ao Brasil, num total que superou R$ 188 milhões na cotação do fechamento do negócio. Poucos dias depois, o Flamengo apresentou Paquetá e o recorde mudou de dono.
Mas Gerson não precisou do superlativo para justificar a contratação. Ele precisava jogar bem. E demorou mais do que o Cruzeiro esperava para que isso acontecesse.
O preço de um jogador desadaptado
A chegada não foi simples. O meia havia saído do Flamengo em julho de 2025 para o Zenit, numa transferência de 25 milhões de euros. O semestre russo foi curto e problemático. Gerson não se adaptou ao futebol europeu mais uma vez, os números caíram, e o Transfermarkt acompanhou em tempo real: de 25 milhões de euros, o valor de mercado recuou para 18 milhões até dezembro de 2025. O Cruzeiro pagou 27 milhões por um jogador avaliado em 18. Essa diferença de quase 10 milhões de euros foi notada pela imprensa especializada, que qualificou a operação como uma contratação “acima do teto” de mercado. Mensalmente, o salário do jogador é de R$3 milhões.
Mesmo assim, a Raposa fechou o negócio. A lógica era outra: comprar o Gerson do Flamengo, o que ele foi em mais de 250 jogos e 14 títulos pelo clube carioca, não o Gerson que ficou seis meses parado na Rússia.
O problema é que esse Gerson não chegou pronto. Chegou sem pré-temporada, sem ritmo de jogo, e num clube com troca de treinador no meio do caminho.
A virada com Artur Jorge
Até meados de 2026, a trajetória de Gerson no Cruzeiro seguia em dois tempos distintos. Com Tite, que pediu a contratação e conhecia o jogador desde a Seleção Brasileira, Gerson levou tempo para encontrar cadência. Foram semanas de críticas, autocrítica pública do próprio atleta e um rendimento que não correspondia ao valor da camisa.
A chegada de Artur Jorge mudou o cenário. O técnico português reposicionou Gerson mais por dentro do campo, com menos responsabilidade de ser o homem da faixa e mais liberdade para atuar no que sabe fazer: distribuir, recuperar e aparecer nas transições. O ajuste tático foi o que faltava.
A partir daí, Gerson passou a ser o melhor jogador do Cruzeiro no Brasileirão em nota Sofascore. Média de 7,12 no Campeonato Brasileiro, com 90% de acerto nos passes, 56% de eficiência nos duelos, 20 desarmes e 65 bolas recuperadas em 17 rodadas. O índice de recuperação de bola é especialmente relevante: Gerson não é um volante clássico que destrói, é um meia que recupera sem abrir mão da construção.
Contra o Grêmio, atuou com 89% de acerto nos passes, deu assistência, foi ovacionado ao sair e saiu de campo com o nome cantado pela torcida no Mineirão. Uma cena que resumiu bem o segundo Gerson de 2026.
O que o torna tão difícil de substituir

O apelido é Coringa. E faz sentido.
Gerson tem uma utilidade tática que vai além do que os números mostram. Ele é o jogador que organiza sem depender de espaço, que recebe sob pressão e não perde a bola, que aparece no corredor certo quando o time precisa de saída. Em 31 jogos na temporada, 30 como titular, com 11 passes decisivos só na Série A, esses dados descrevem um meia que ainda não está no auge, mas já é insubstituível no esquema da Raposa.
Há também o fator de controle. Matheus Pereira cria, Kaio Jorge finaliza, Néiser Villarreal provoca. Gerson equilibra. Ele é o jogador que evita que o time desequilibre para o lado errado quando o Cruzeiro não tem a bola. Sem ele, o meio-campo celeste fica mais exposto. Com ele, o time consegue pressionar alto e ainda ter cobertura.
O número de 65 bolas recuperadas no Brasileirão coloca Gerson entre os líderes da posição na competição. Isso, combinado com os 90% de eficiência no passe, é o retrato de um volante de elite: recupera e usa bem. Não é comum essa combinação no futebol brasileiro.
O custo real e o que falta fechar
A temporada de Gerson no Cruzeiro é um exemplo de adaptação que levou mais tempo do que o clube esperava, mas que está se resolvendo em campo. O primeiro semestre termina com 31 partidas, três assistências e o reconhecimento de uma evolução consistente.
O que ainda pesa é a ausência na Copa do Mundo. Carlo Ancelotti não o convocou para o Mundial, mesmo com a melhora nas últimas rodadas. A disputa com Bruno Guimarães e Danilo do Botafogo, dois meias mais consolidados no radar da Seleção, foi argumento suficiente para o técnico italiano deixar Gerson fora. Para um jogador do calibre dele e com o histórico que tem pela camisa da Seleção, ficar de fora é uma sineta de alerta, não um ponto final.
Mas há uma segunda leitura desse cenário que o Cruzeiro pode aproveitar. A Copa do Mundo para o elenco em junho e julho. Quando a Série A retomar, Gerson vai encontrar um campeonato em plena ebulição, com adversários que gastaram mais energia no torneio. Ele começa essa segunda metade descansado, adaptado e, pelos sinais recentes, jogando no seu nível real.
O que o Cruzeiro comprou, de verdade
Quando a Raposa fechou a contratação em janeiro, o discurso era de que Gerson era a peça que faltava para transformar o clube numa força constante no cenário nacional. O diagnóstico não estava errado, estava adiantado.
A leitura mais honesta é que o Cruzeiro comprou um jogador em processo de reconstrução depois de um semestre ruim, e precisou de tempo e de um técnico compatível para ativar o que sabia que estava lá. Isso aconteceu. O Gerson do segundo trimestre de 2026 é muito mais próximo do que o Cruzeiro esperava em janeiro do que o que apareceu nos primeiros jogos.
Com 29 anos e contrato até 2030, ele tem tempo de devolver o investimento. O segundo semestre vai mostrar se esse Cruzeiro tem, de fato, um meia de elite ou um bom jogador em boa fase. A diferença entre essas duas coisas vai aparecer quando o campeonato apertar.





