Arrascaeta e Kaio Jorge, astros do Cruzeiro e Flamengo, são os únicos jogadores do Brasil no top 100 mundial de decisividade. O levantamento do CIES Football Observatory — referência suíça em análise de dados do futebol — analisou 67 ligas globais e colocou apenas dois atletas que atuam no país entre os mais letais do planeta. O recorte expõe tanto a excelência dos dois quanto um problema crônico do futebol brasileiro: dificuldade de transformar domínio em números que viajam para fora.
O uruguaio do Flamengo aparece na 22ª posição geral. São 30 participações diretas em gols no último ano: 19 gols e 11 assistências oficiais. O dado ganha peso quando ajustado pelo nível de dificuldade das partidas — Arrascaeta sobe de posição no índice ponderado do CIES, provando que produz contra adversários de qualidade, não apenas em jogos acessíveis.
Kaio Jorge, do Cruzeiro, ocupa a 32ª colocação entre os que jogam no Brasil. O atacante de 23 anos soma 29 participações diretas: 22 gols e 7 assistências. O número que chama atenção dos observadores internacionais é a média de 110 minutos por gol ou assistência — eficiência comparável a atacantes de ligas superiores em volume de jogos.
Por que só dois brasileiros?
A ausência massiva do Brasileirão na lista tem explicação tática e estrutural. O CIES mede produção ofensiva bruta em 365 dias — recorte que favorece ligas com calendário intenso e jogos abertos. MLS e Arábia Saudita, por exemplo, aparecem com volume expressivo de nomes. No Brasil, a combinação de temporada mais curta, rodízio de elencos e confrontos táticos mais “travados” achata estatísticas individuais.

Arrascaeta e Kaio Jorge funcionam como exceções que confirmam a regra. O uruguaio é motor criativo absoluto do Flamengo — time que centraliza protagonismo ofensivo em poucos nomes. O cruzeirense concentra finalizações em um elenco que depende de sua conversão. Ambos têm o que a maioria dos clubes brasileiros evita: monopolização da decisão em um único jogador.
O que separa o Brasil das ligas de topo?
Lionel Messi lidera o ranking com 59 participações diretas — 37 gols e 22 assistências. A distância para o segundo colocado reflete um fenômeno que o Brasil não replica: concentração de talento ofensivo em estrelas absolutas que jogam 50+ partidas por ano em sistemas construídos para potencializá-las.

No Brasileirão, mesmo craques distribuem responsabilidade. O resultado são times mais coletivos — e menos presentes em rankings de produtividade individual. O CIES não mede “melhor jogador”, mede impacto direto em resultado. Nessa métrica, o futebol brasileiro perde para ligas que permitem estatísticas infladas.
O valor de mercado da decisividade
Para Kaio Jorge, a entrada no ranking é recibo de recuperação. Vendido à Juventus em 2021 por € 15 milhões, o atacante fracassou na Europa e retornou ao Brasil em 2024. Os números do CIES o reposicionam como ativo valorizado — mesmo sem “grife” de Premier League ou La Liga.
Arrascaeta, por sua vez, consolida status de melhor meia da América do Sul. Com 30 anos, o uruguaio está no auge da curva de produtividade. O Flamengo tem em suas estatísticas argumento para renovação contratual ou, eventualmente, negociação com exterior.
O desafio para Cruzeiro, Flamengo e o restante do futebol brasileiro é transformar exceção em padrão. No ecossistema atual, quem empilha gols e assistências vira manchete, vira mercado, vira narrativa global. Arrascaeta e Kaio Jorge provam que é possível desde que o contexto permita. O problema é que, no Brasil, esse contexto é raro — e cada vez mais caro.