Janeiro de 2026. O Flamengo entra em campo pelo Campeonato Carioca e a narrativa se repete: “obrigação de vencer”, “teste para o treinador”, “crise se não golear”. Vamos ser honestos? Isso é uma alucinação. Para um clube que fatura R$ 2 bilhões por ano e negocia contratações na casa dos € 40 milhões (como o caso Paquetá), o Estadual deixou de ser parâmetro de sobrevivência há muito tempo.
A “pressão” no Carioca é um mito alimentado pela rivalidade local, mas que não se sustenta na realidade financeira e técnica. O Flamengo não joga o mesmo campeonato que Boavista ou Madureira; joga, na prática, uma pré-temporada de luxo. E o maior erro que a diretoria e a comissão técnica podem cometer é cair na armadilha de tratar o estadual como fim, e não como meio.
O Abismo Financeiro e a Ilusão de Ótica no Flamengo
O Flamengo tem um orçamento de superclube. Seus rivais menores lutam para pagar a folha.
- O Risco da Vitória: Golear times frágeis cria a falsa sensação de que “o time está pronto”. É a ilusão que cai por terra na primeira rodada difícil de Libertadores.
- O Risco da Derrota: Tropeçar no início de ano, com pernas pesadas de pré-temporada, gera uma crise desproporcional que pode derrubar técnicos competentes antes da hora. O clube precisa se blindar. Ganhar o Carioca é bom? Sim. Mas perder o Carioca e ganhar a Libertadores é infinitamente melhor. A prioridade não pode ser invertida.
Laboratório de Inovação: O Que Deveria Acontecer
Em vez de escalar força máxima para garantir um 2 a 0 burocrático, o Flamengo deveria usar o Carioca como o Laboratório de Inovação de 2026.

- Testar Novos Sistemas: Como jogar com quatro meias criativos? Como encaixar Gerson, De La Cruz, Arrascaeta e um possível novo reforço? O Estadual é o lugar para errar taticamente sem medo.
- Rodagem da Base: O Flamengo revela craques (Vini Jr, Paquetá, João Gomes) dando espaço. O Carioca é o palco para o novo “Lorran” ou “Shola” ganhar casca, protegendo os titulares de lesões em gramados ruins.
- Físico vs. Técnico: Usar o torneio para periodização física, garantindo que o time voe em maio/junho, mesmo que isso custe um empate em fevereiro.
A “Armadilha” dos Clássicos
O único momento em que o Carioca simula a realidade é nos clássicos. Contra Botafogo, Fluminense e Vasco, o nível de exigência sobe. Mas até aí é preciso frieza. O Flamengo, com seu poderio, tornou-se o alvo a ser batido. Para os rivais, ganhar do Flamengo é um título à parte. Para o Flamengo, ganhar o clássico é afirmação de hierarquia, mas não define a temporada. Entrar na pilha de “vida ou morte” num Fla-Flu em fevereiro é gastar energia mental que será necessária contra um River Plate ou Palmeiras lá na frente.