Quando o Cruzeiro deixou de disputar as Copas, uma consequência apareceu imediatamente no calendário. A Raposa perdeu possibilidades de título, mas ganhou algo que boa parte dos concorrentes não terá com a mesma frequência na reta final: semanas inteiras para treinar, recuperar jogadores e preparar cada rodada do Campeonato Brasileiro.
O primeiro grande teste dessa nova realidade aconteceu contra o Santos.
E terminou justamente da maneira que o novo calendário deveria ajudar a evitar.
Cruzeiro teve tempo, mas apresentou seu pior lado
Entre a vitória sobre o Athletico-PR e a visita à Vila Belmiro, o Cruzeiro teve uma semana inteira de preparação. Não havia decisão de mata-mata no meio do caminho nem necessidade de administrar titulares pensando em outra competição poucos dias depois.
Mesmo assim, a equipe perdeu por 2 a 1 e produziu um primeiro tempo muito abaixo daquele apresentado durante sua recuperação recente.
O problema não ficou restrito ao resultado. Em análise publicada pelo ge, o Santos terminou com mais de 30 finalizações, e o Cruzeiro escapou de uma diferença maior principalmente pelas intervenções do goleiro.
O próprio Artur Jorge reconheceu depois da partida que a primeira etapa foi muito ruim.
O contexto transforma a derrota em algo mais relevante do que simplesmente três pontos desperdiçados fora de casa.
O Cruzeiro havia acabado de ganhar justamente aquilo que normalmente é apresentado como uma das soluções para oscilações físicas e táticas: tempo.
A desculpa do calendário praticamente desapareceu
Durante a disputa simultânea de diferentes competições, qualquer análise sobre o rendimento celeste precisava considerar desgaste, viagens, recuperação curta e necessidade de rodar o elenco.
Agora essa variável perdeu força. Isso não significa que uma semana livre seja suficiente para garantir uma grande atuação. Futebol não funciona dessa maneira. Significa, porém, que os problemas apresentados diante do Santos dificilmente podem ser atribuídos à falta de tempo para preparação.
A cobrança sobre Artur Jorge passa, portanto, a ter outra natureza.
O treinador já mostrou capacidade para alterar o desempenho da equipe. O Cruzeiro melhorou significativamente no segundo turno e conseguiu recolocar a disputa pelas primeiras posições no horizonte.
É justamente por isso que a atuação na Vila Belmiro chama atenção.
Não se trata de uma equipe que ainda tenta descobrir se consegue competir em alto nível. Ela já mostrou que consegue. A questão agora é explicar por que, com condições melhores de preparação, voltou a apresentar uma versão tão distante daquela que vinha sustentando a reação.
Otávio evitou que o problema parecesse ainda maior
A diferença entre o desempenho e o placar também merece atenção. O 2 a 1 sugere uma partida apertada. O número de oportunidades criadas pelo Santos conta outra história.
Otávio voltou a confirmar por que ganhou espaço mesmo depois de iniciar a temporada distante da condição de titular.
O crescimento do jovem já vinha sendo acompanhado pelo Moon BH. Em poucos meses, o Cruzeiro transformou um goleiro que começou o ano como terceira opção em um ativo protegido por multa de aproximadamente R$ 600 milhões e, posteriormente, em jogador convocado pela Seleção Brasileira.
Diante do Santos, ele novamente impediu que uma atuação coletiva ruim resultasse em um placar ainda mais pesado.
Do outro lado, Matheus Pereira marcou nos minutos finais e ainda ofereceu à Raposa uma possibilidade de buscar o empate.
O camisa 10 vive justamente uma temporada na qual passou a aparecer mais como finalizador. O Moon BH mostrou em agosto que essa transformação o aproximou de sua melhor marca de gols na carreira.
A reação tardia, contudo, não apaga os problemas anteriores.
Mais tempo também significa mais cobrança
Sem jogos eliminatórios ocupando o meio das semanas, Artur Jorge tende a ter mais sessões para corrigir pressão, saída de bola, organização defensiva e mecanismos ofensivos.
Isso transforma a agenda vazia em uma vantagem e, ao mesmo tempo, em um parâmetro de cobrança.
Quanto mais tempo existe para preparar uma partida, menos convincentes ficam explicações relacionadas à falta de treinamento ou recuperação.
O Cruzeiro ganhou algo valioso quando seu calendário ficou mais leve. Mas a derrota para o Santos revelou o outro lado dessa vantagem.
Se a Raposa realmente possui mais tempo do que vários concorrentes para se preparar, cada atuação muito abaixo do padrão passa também a exigir uma explicação maior.


