Éderson não estava nos planos originais de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo. Mas uma lesão de Wesley abriu a porta que faltava, e o volante formado nas categorias de base do Cruzeiro embarcou para os Estados Unidos como substituto de última hora. Poucos dias depois, entrou em campo na vitória sobre o Haiti e viveu sua estreia sob o comando do técnico italiano.
A convocação não surpreende quem acompanha a trajetória do jogador. Aos 26 anos, Éderson vive o melhor momento da carreira na Atalanta, onde se firmou como titular absoluto e peça importante do meio-campo. Wesley, lateral da Roma, sofreu lesão muscular no adutor da coxa esquerda e acabou cortado. Ancelotti recorreu então ao volante que já conhecia de uma convocação anterior, ainda sem minutos em campo.
Da Toca da Raposa para a Itália
A ligação de Éderson com o Cruzeiro remonta a 2018, quando chegou por empréstimo para reforçar o time sub-20. No ano seguinte, ganhou espaço no profissional durante um dos períodos mais turbulentos da história recente do clube, que terminou rebaixado à Série B daquela temporada.
A saída, em 2020, não foi tranquila. Alegando atrasos salariais que giravam em torno de R$ 2 milhões, o volante recorreu à Justiça para rescindir o contrato. Um acordo foi fechado meses depois e o jogador deixou o clube mineiro. Ao todo, defendeu o Cruzeiro em 27 partidas e marcou dois gols.
Da Toca da Raposa, o caminho seguiu pelo Corinthians, onde alternou entre titularidade e banco de reservas. Sem conseguir se firmar no Timão, foi emprestado ao Fortaleza e se tornou peça essencial do time cearense, com 58 jogos disputados em 2021. O bom desempenho chamou a atenção da Europa. Em 2022, a Salernitana pagou cerca de R$ 39 milhões ao Corinthians para contratá-lo.
Uma estreia que chegou tarde, mas chegou

Éderson já vestia a camisa da Seleção Brasileira desde 2024, quando foi convocado por Dorival Júnior para a Copa América daquele ano. Até a convocação para o Mundial, porém, eram apenas três partidas disputadas, todas sob o comando do treinador anterior. Nenhuma delas resultou em gol ou assistência.
A chegada de Ancelotti ao comando da equipe nacional não mudou o cenário de imediato. O volante chegou a integrar a primeira lista do italiano, em junho de 2025, mas ficou no banco durante toda a passagem por aquelas convocações. Foi preciso um imprevisto físico de outro jogador para que a oportunidade finalmente aparecesse dentro de campo.
Essa espera diz algo sobre o momento do futebol brasileiro na Copa. Ancelotti chamou originalmente poucos volantes para a competição, e a lesão de Wesley expôs uma equipe que já parecia enxuta nesse setor. Éderson chega como reforço de rota, não como plano B qualquer. Ele amplia as opções num meio-campo que precisava de mais profundidade justamente num torneio de desgaste físico elevado.
Manchester United na mira
Enquanto disputa a Copa, Éderson também negocia seu futuro no futebol europeu. A Atalanta tem conversas avançadas para vender o volante ao Manchester United, um dos gigantes do futebol inglês. Segundo apuração do Diário Celeste, o clube inglês pagaria 40 milhões de euros, cerca de R$ 233 milhões na cotação atual, além de bônus pelo meio-campista. A informação foi divulgada pela Diário Celeste, que também detalha a cláusula que envolve o Cruzeiro nesse negócio.
Isso muda a dimensão da história. Um jogador revelado na Toca da Raposa, que deixou o clube em meio a uma disputa trabalhista, pode terminar 2026 vestindo a camisa de um dos times mais tradicionais do mundo. É esse tipo de trajetória que costuma render boas histórias no futebol, cheias de reviravoltas e recomeços forçados.
O que sobra para o Cruzeiro
O clube mineiro também tem interesse financeiro direto nessa negociação. Como parte da formação do jogador, o Cruzeiro tem direito a uma fatia da transferência. O percentual gira em torno de 0,79% do valor total, o que representaria cerca de R$ 1,84 milhão na cotação atual.
Não é uma quantia que muda o caixa do clube. Mas serve como lembrete de que a formação de categorias de base segue sendo um ativo de longo prazo, mesmo quando a saída do atleta acontece em meio a conflitos, como foi o caso de Éderson.
A trajetória do volante também alimenta um discurso recorrente entre torcedores e dirigentes do Cruzeiro: o de que a Toca da Raposa continua produzindo jogadores capazes de chegar à Seleção Brasileira e ao futebol europeu de alto nível. Éderson se junta a uma lista de nomes formados no clube que romperam essa barreira, ainda que o caminho até lá tenha passado por instabilidade financeira e disputas judiciais.
Resta saber se a estreia contra o Haiti foi um episódio isolado ou o início de uma sequência maior na Copa. Com Wesley fora e o setor de meio-campo sob pressão, Ancelotti pode recorrer novamente ao volante nas próximas rodadas do Mundial.





