Éderson virou personagem de Copa do Mundo por uma porta improvável. O volante da Atalanta foi convocado por Carlos Ancelotti para a Seleção Brasileira após o corte de Wesley, lateral-direito da Roma, que sofreu lesão muscular no adutor da coxa esquerda durante amistoso contra o Egito. A CBF confirmou a troca neste domingo (7), e o jogador deve se juntar ao grupo brasileiro nos Estados Unidos.
A convocação chama atenção por dois motivos. O primeiro é esportivo: Ancelotti perdeu o único lateral-direito de origem da lista e chamou um meio-campista. O segundo é simbólico para Minas: Éderson passou pela base e pelo profissional do Cruzeiro, saiu em meio à crise financeira de 2019/2020 e hoje chega à Copa valorizado no mercado europeu.
O caso também reabre uma pergunta incômoda para a torcida celeste: quanto o Cruzeiro deixou de ganhar com um jogador que hoje está perto de movimentar cifras superiores a R$ 260 milhões?
Éderson saiu do Cruzeiro em meio à crise
Éderson José dos Santos Lourenço da Silva nasceu em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, em 7 de julho de 1999. Antes de ganhar projeção, passou pela Escolinha Bola de Ouro, em Campo Grande, foi para o Desportivo Brasil e ainda teve uma experiência jovem no Shandong Taishan, da China. A estreia profissional, porém, veio no Cruzeiro.
Ele chegou à Raposa em 2018, inicialmente para a base, vindo do Desportivo Brasil. No ano seguinte, ganhou espaço no profissional em um dos períodos mais turbulentos da história celeste. Mesmo na campanha do rebaixamento em 2019, apareceu como uma das poucas novidades positivas do elenco.
Pelo Cruzeiro, fez 27 partidas e marcou dois gols. Um deles foi contra o Corinthians, clube que pouco depois se tornaria seu destino. O volante se destacava pela intensidade, pela chegada de trás e pela coragem para jogar em um time emocionalmente destruído.
A saída, no entanto, não foi uma venda comum. Em janeiro de 2020, Éderson entrou na Justiça do Trabalho contra o clube cobrando cerca de R$ 2 milhões em salários atrasados, imagem, luvas, FGTS, férias e 13º salário. O contrato iria até agosto de 2023, mas a crise abriu caminho para a ruptura.
Por quanto o Cruzeiro vendeu Éderson?
Tecnicamente, o Cruzeiro não fez uma venda tradicional de Éderson ao Corinthians. O jogador ficou livre após acordo extrajudicial, em troca do perdão das dívidas que cobrava do clube. Na prática, a Raposa perdeu um ativo jovem em um contexto de colapso financeiro.
Esse é o ponto mais importante para o leitor: não houve uma grande venda do Cruzeiro. O clube havia comprado parte dos direitos econômicos do jogador pouco antes. Segundo o ge, a Raposa acertou em 2019 o pagamento de cerca de R$ 1 milhão por 50% dos direitos econômicos de Éderson junto ao Desportivo Brasil.
Quando ele fechou com o Corinthians, o clube paulista não precisou pagar pelos direitos econômicos, justamente porque o atleta estava livre no mercado após a rescisão. O custo alvinegro ficou concentrado em salário e luvas.
Depois disso, o Cruzeiro ainda recebeu valores menores por mecanismo de solidariedade da Fifa. Quando o Corinthians vendeu Éderson à Salernitana, da Itália, o negócio girou em torno de 6,5 milhões de euros, aproximadamente R$ 39 milhões à época, e a Raposa teve direito a uma pequena fatia como clube formador.
Na transferência posterior da Salernitana para a Atalanta, o valor subiu para cerca de 21 milhões de euros, segundo informações da imprensa europeia citadas pelo ge. O Cruzeiro voltou a ter direito a percentual de formação.
Agora, o salto é ainda maior. Manchester United e Atalanta chegaram a acordo de até 45 milhões de euros por Éderson, sendo 40,5 milhões fixos e 4,5 milhões em bônus, de acordo com o UOL, citando o New York Times. A conclusão do negócio depende de exames médicos e está prevista para o início de julho.
Do Corinthians ao Fortaleza: a virada da carreira
No Corinthians, Éderson não se firmou. Foram 25 jogos e três gols, mas sem continuidade suficiente para virar peça central. O ponto de virada aconteceu no Fortaleza, em 2021.
No time cearense, passou a jogar com mais liberdade para pressionar, roubar bola e atacar espaço. O contexto coletivo ajudou. O Fortaleza tinha organização, intensidade e um modelo que favorecia meio-campistas agressivos. Éderson deixou de ser apenas uma aposta e virou jogador de mercado.
A venda para a Salernitana, em janeiro de 2022, foi o primeiro grande salto. Na Itália, encontrou um campeonato que valorizou suas virtudes físicas. Em poucos meses, ajudou o clube a escapar do rebaixamento e chamou atenção da Atalanta.
Em Bérgamo, entrou em um ambiente ideal para crescer. A Atalanta é conhecida por exigir intensidade, duelos, pressão alta e participação constante dos meio-campistas. Éderson se adaptou ao modelo e virou titular em um dos clubes mais competitivos da Serie A.
A consolidação veio com título europeu. Ele fez parte do elenco campeão da Liga Europa 2023/24, campanha que colocou a Atalanta em uma prateleira mais alta do futebol continental.
Como joga Éderson

Éderson é volante, mas não deve ser lido como um primeiro homem clássico. Ele pode atuar mais recuado, mas sua melhor versão aparece como meio-campista de ida e volta, com força para cobrir campo, disputar duelos e chegar à frente.
O perfil é diferente de um meia armador. Ele não é o jogador que organiza o time com passes longos o tempo todo, nem um camisa 10 de construção refinada. Seu valor está na intensidade sem bola, na capacidade de recuperar posse, proteger transições e acelerar quando encontra espaço.
Na Atalanta, ganhou repertório para jogar em partidas de alta exigência física. Consegue pressionar o portador da bola, sustentar contato, ganhar metros conduzindo e aparecer na entrada da área. Não é um volante apenas destrutivo: também pisa no campo ofensivo e tem chute de média distância.
A Itatiaia registrou que, na última temporada, Éderson fez 41 jogos pela Atalanta, sendo 36 como titular, com três gols e três assistências. No total pelo clube italiano, soma 179 partidas, 16 gols e seis assistências.
Para a Seleção, a convocação tem uma leitura curiosa. Wesley era lateral-direito. Éderson é volante. Ou seja, Ancelotti não substituiu posição por posição. A tendência é que Danilo e Ibañez sejam usados como alternativas pelo lado direito, enquanto Éderson aumenta a força de meio-campo do grupo.


