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Salário de Matheus Pereira no Cruzeiro é maior que o de Gerson e Kaio Jorge

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No Cruzeiro, quem mais recebe não é o jogador mais caro nem o mais valioso. É o camisa 10.

Matheus Pereira renovou com o clube celeste em janeiro de 2026 por um pacote mensal estimado em R$ 3,5 milhões, somando salário, direitos de imagem e luvas diluídas ao longo do contrato até 2028. O valor o coloca no topo da folha salarial da Raposa, acima de Gerson, que recebe R$ 3 milhões por mês, e de Kaio Jorge, cujo vencimento fica abaixo dos dois meias. A inversão entre salário e valor de mercado é uma das escolhas mais reveladoras da estratégia financeira do Cruzeiro na atual gestão.

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O que o Transfermarkt diz sobre o elenco

Pelo levantamento mais recente do Transfermarkt, o jogador mais valioso do elenco celeste é Kaio Jorge, avaliado em 26 milhões de euros. Na sequência vem Gerson, com 20 milhões de euros. Matheus Pereira aparece em terceiro lugar no ranking de valor de mercado, com 14 milhões de euros. Em termos de custo de aquisição, Gerson continua sendo o maior investimento da história do futebol brasileiro até a chegada de Paquetá ao Flamengo: 27 milhões de euros fixos mais 3 milhões em bônus pagos ao Zenit em janeiro de 2026.

A conta, olhada assim, parece paradoxal: o jogador com menor valor de mercado entre os três recebe o maior salário. Mas a lógica que explica essa estrutura está menos nos números do Transfermarkt e mais nas circunstâncias de cada negociação.

Por que Matheus Pereira vale mais na folha

A renovação de Matheus Pereira não foi uma transação padrão de mercado. Foi uma operação de retenção emergencial. O contrato anterior do meia com o Cruzeiro terminava em junho de 2026, o que significa que, a partir de janeiro, ele estava livre para assinar um pré-contrato com qualquer clube e sair de graça no meio do ano. Palmeiras e Flamengo circulavam nos bastidores. A diretoria celeste sabia que perder o camisa 10 sem receber nada seria um desastre financeiro e esportivo.

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Para segurar o jogador, Pedro Lourenço abriu os cofres. O pacote de R$ 3,5 milhões mensais coloca Matheus Pereira numa prateleira financeira equiparável a estrelas de Flamengo e Palmeiras. O custo é alto, mas o Cruzeiro comprou estabilidade, protegeu o ativo e garantiu que o principal criador do time de Artur Jorge permanecesse em BH por mais dois anos. Sem a renovação, o Cruzeiro perderia não só o jogador, mas também a multa rescisória renovada e a capacidade de negociá-lo por valor condizente no futuro.

Por que Gerson e Kaio Jorge ficam abaixo

Gerson cumprimenta Pedrinho e BH e Kaio Jorge fazendo pose no Cruzeiro
Foto: Gustavo Aleixo/Cruzeiro

A estrutura salarial de Gerson foi condicionada por um fator diferente: o custo de aquisição. O Cruzeiro gastou 27 milhões de euros para comprar o meia do Zenit, o maior desembolso na história do futebol brasileiro até aquele momento. Esse valor absorveu parte significativa do orçamento disponível para a remuneração mensal. Segundo apurado na época da negociação, o salário de Gerson na Rússia era de cerca de R$ 3 milhões por mês. O Cruzeiro manteve esse patamar, mas não elevou de forma expressiva, justamente porque boa parte do custo total da operação já estava concentrada no valor pago ao Zenit.

No caso de Kaio Jorge, o atacante foi mantido no clube após o Cruzeiro recusar ofertas do Flamengo, mas seu vínculo foi renovado sem a pressão imediata de um contrato prestes a vencer. A negociação foi mais tranquila e o salário acordado ficou abaixo dos dois meias. Seu valor de mercado de 26 milhões de euros, o maior do elenco, reflete sobretudo a idade (23 anos), a posição e o potencial de valorização ainda não precificado em salário.

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O que essa estrutura revela sobre o modelo do Cruzeiro

A lógica da SAF de Pedro Lourenço não é simplesmente pagar mais para quem vale mais no Transfermarkt. É garantir os ativos estratégicos nos momentos em que o clube tem menos poder de negociação. Matheus Pereira estava saindo de graça: o Cruzeiro pagou o preço da urgência. Gerson foi comprado em situação de mercado desfavorável, com valor inflado pelo histórico no Flamengo: o clube pagou o preço da escassez. Kaio Jorge foi mantido por força esportiva e longevidade contratual: o clube pagou o preço da consistência.

O resultado dessa conta é uma folha em que o jogador com menor valor de mercado entre os três principais é, na prática, o mais caro mensalmente. Em termos absolutos, o pacote de Matheus Pereira custa ao Cruzeiro R$ 42 milhões por ano. Gerson custa R$ 36 milhões. É uma diferença de R$ 6 milhões anuais entre o craque do time e o maior investimento da história do clube.

Essa assimetria não é necessariamente um erro de gestão. É o resultado de decisões tomadas em contextos diferentes, com pressões diferentes. O que ela expõe é a complexidade de montar um elenco de elite no Brasil, onde as janelas de transferência, os contratos prestes a vencer e o assédio de clubes rivais ditam a lógica financeira com a mesma força que o valor de mercado de cada atleta.

O Cruzeiro apostou alto em três jogadores de perfis distintos. O segundo semestre vai mostrar se o retorno coletivo justifica o custo individual de cada um deles.

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Anna Millard
Anna Millard
Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP. Tem experiência em jornalismo esportivo e de cidades e economia e passou pelo setor público e em assessoria de imprensa.