HomeEsportesCruzeiroComo Ronaldo no Cruzeiro pode 'barrar' Neymar de comprar SAF do Santos

Como Ronaldo no Cruzeiro pode ‘barrar’ Neymar de comprar SAF do Santos

A dívida de R$ 90,5 milhões do Santos com a NR Sports, empresa da família de Neymar, abriu um debate que vai muito além do caixa. O aditivo revelado pelo ge prevê pagamento até o início de 2030, coloca o CT Meninos da Vila como garantia jurídica e ainda amarra o parcelamento a gatilhos políticos e societários — como a reeleição de Marcelo Teixeira e o futuro do clube em uma eventual SAF.

Isso não transforma Neymar automaticamente em “dono” do Santos, mas o coloca, junto de sua família, em uma posição de influência muito mais forte sobre o destino do projeto santista.

A dívida dá força política, não controle automático

O ponto central é jurídico. Hoje, o Santos segue no modelo associativo — e associação não funciona como empresa que alguém simplesmente compra. Para Neymar ou sua família virarem donos do futebol santista, o caminho mais plausível teria de passar por uma transformação em SAF ou por uma estrutura societária nova para o departamento de futebol.

O contrato atual já prevê que, se o Santos virar SAF, a obrigação do pagamento será repassada aos acionistas. Na prática, isso significa o seguinte: a dívida não entrega o clube a Neymar, mas pode dar à NR Sports um assento muito mais pesado na mesa se o clube precisar reestruturar capital ou redesenhar sua governança.

É razoável inferir que um credor de R$ 90,5 milhões, com garantias relevantes e cláusulas de vencimento antecipado, ganha poder de pressão numa futura negociação de SAF — mas isso seria uma alavanca de negociação, não uma transferência automática de controle. O próprio Marcelo Teixeira afirmou que não houve intenção de “assegurar que um patrimônio vá para a NR Sports”.

O caso Ronaldo no Cruzeiro é um aviso poderoso

Reprodução – Cruzeiro

É aqui que a experiência de Ronaldo no Cruzeiro pesa como alerta. Ao deixar a SAF celeste, negociada por R$ 600 milhões por 90% das ações, o ex-atacante relatou que viveu uma experiência “muito dura”, disse que ainda se recuperava do desgaste e afirmou que colocou o próprio CPF em risco diante de uma dívida de R$ 1,2 bilhão.

O investidor de clube não carrega só o bônus da vitrine — ele absorve cobrança por reforços, pressão por resultado, desgaste político e exposição a passivos antigos. No caso de Neymar, a conta reputacional pode ser ainda mais sensível: ele continua sendo atleta, segue no centro da indústria publicitária e teria sua imagem associada diariamente a folha salarial, atrasos e decisões impopulares.

Neymar pode preferir influência a propriedade do Santos

Por isso, o cenário mais plausível hoje talvez não seja Neymar virar dono do Santos, mas ampliar influência sobre o “dia seguinte” do clube. O contrato já mostra que a NR Sports quis proteção forte para receber — e o debate sobre SAF inevitavelmente aumenta o peso político da família em qualquer conversa futura.

A lição do Cruzeiro sugere que estar perto do poder pode ser bem mais confortável do que assumir o volante por completo: o parceiro preserva capital simbólico; o dono responde por tudo.

Marcos Amaral
Marcos Amaral
Jornalista formado pela Estácio de Sá, cobre futebol por paixão e profissão. Jogador amador, é especialista na cobertura do Flamengo, Palmeiras, Cruzeiro, Atlético, Grêmio e Corinthians. Há mais de 10 anos acompanha de perto o futebol nacional.