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Atlético transforma ritual da torcida em novo ativo comercial

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O Atlético apresentou sua terceira camisa para a temporada de 2026, mas o lançamento revela algo maior do que uma nova peça no catálogo do clube. Pela primeira vez, um dos principais rituais criados pela própria torcida nos arredores dos estádios foi transformado diretamente em produto oficial, mostrando que a cultura construída fora das quatro linhas também pode adquirir valor comercial.

A nova camisa tem tons alaranjados e foi inspirada na chamada “Rua de Fogo”, festa realizada pelos atleticanos na chegada do ônibus da equipe. Segundo o ge, o uniforme começa a ser comercializado em 11 de setembro nas versões jogador e torcedor, enquanto o preço ainda não havia sido divulgado no momento do lançamento.

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A história chama atenção porque o Atlético não precisou inventar uma campanha para criar esse símbolo. A matéria-prima já estava pronta havia anos, construída espontaneamente por torcedores e posteriormente incorporada à experiência dos jogos na Arena MRV.

Uma marca que nasceu antes do produto

A Rua de Fogo não surgiu com a nova casa atleticana e nem foi planejada por uma agência de publicidade. Festas semelhantes já aconteciam nos arredores do Independência e do Mineirão, especialmente em grandes jogos, e ganharam uma nova dimensão com a mudança para a Arena MRV.

O próprio lançamento reforça essa origem. A Adidas escolheu o rapper Djonga, o tatuador Thiago Scap e o torcedor Lucas Gusmão para apresentar a camisa durante o clássico diante do Cruzeiro, colocando figuras ligadas à identidade atleticana no centro da campanha em vez de limitar a divulgação aos jogadores profissionais.

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Existe uma diferença importante nesse movimento. Clubes costumam criar produtos e depois tentar convencer a torcida de que eles representam sua identidade, enquanto o Atlético fez o caminho inverso: encontrou algo que os atleticanos já reconheciam como próprio e transformou esse símbolo em um item comercial.

É justamente aí que aparece um ativo difícil de reproduzir. Um rival pode contratar jogadores semelhantes, construir um estádio moderno ou lançar uma camisa laranja, mas não consegue simplesmente importar uma tradição que depende da relação específica entre uma torcida, um clube e sua história.

Arena MRV começa a produzir seus próprios símbolos

Divulgação

A transformação também ajuda a responder a uma pergunta que acompanha estádios novos: quanto tempo leva para uma arena deixar de parecer apenas uma construção e começar a acumular memória? No caso atleticano, algumas respostas começaram a aparecer apenas três anos depois da inauguração.

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A Rua de Fogo virou uma das imagens mais reconhecíveis dos grandes jogos no estádio. Ao mesmo tempo, a Arena vem concentrando partidas que ajudam a construir uma identidade própria, como a virada sobre o Cruzeiro que levou o Galo à semifinal da Copa do Brasil.

O tamanho dessa mobilização apareceu também nas arquibancadas. O clássico de terça-feira recebeu 42.992 torcedores e gerou renda de R$ 4,45 milhões, estabelecendo o maior público da Arena MRV em 2026 e entrando entre os dez maiores da história do estádio.

Quando quase 43 mil pessoas participam do mesmo ambiente que inspira uma camisa oficial, o produto deixa de ser apenas uma escolha estética. O Atlético passa a vender ao torcedor uma lembrança física de uma experiência que ele próprio ajudou a construir.

O patrimônio que não aparece no balanço

Essa é talvez a parte mais valiosa da operação. A camisa pode gerar receita imediatamente, mas a Rua de Fogo vale para o Atlético mesmo quando nenhum uniforme está sendo vendido.

Ela produz imagens para transmissões, campanhas publicitárias, redes sociais e ações com patrocinadores. Também diferencia a experiência de assistir a uma partida na Arena MRV e acrescenta uma camada de identidade que não depende diretamente do desempenho esportivo do time.

Não significa que o Atlético seja proprietário da manifestação criada pelos torcedores ou que toda tradição de arquibancada precise ser comercializada. O ponto é justamente outro: o clube percebeu que existe valor econômico e de marca em preservar e amplificar símbolos que surgiram organicamente.

A terceira camisa de 2026 pode vender muito ou pouco, e o preço sequer havia sido anunciado no lançamento. O ativo mais interessante, porém, já existia antes dela: uma manifestação criada gratuitamente pela torcida, reconhecida pelo público e agora forte o suficiente para vestir oficialmente o Atlético.

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Anna Millard
Anna Millard
Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto. Tem experiência em jornalismo esportivo, cidades e economia. Passou pelo setor público em assessoria de comunicação e assessoria de imprensa.