O Atlético-MG saiu vivo da Arena Castelão. A classificação veio, mas a bagagem de volta a Belo Horizonte traz muito mais perguntas do que respostas. O confronto pela Copa do Brasil quase se transformou em um trauma esportivo precoce. A equipe mineira perdeu por 2 a 1 no tempo normal para um adversário que hoje disputa a Série B.
A vantagem construída na partida de ida evaporou em questão de minutos. A salvação do desastre iminente só chegou nos acréscimos, graças à frieza de um garoto recém-promovido da base. Nos pênaltis, a estrela do goleiro Everson brilhou de forma absoluta para evitar o pior e selar o passaporte alvinegro.
O desmoronamento precoce e o apagão tático
O roteiro da partida foi reescrito antes mesmo de os times suarem as camisas. Logo aos três minutos de jogo, o zagueiro Cissé cometeu um erro fatal. Ele derrubou Fernandinho dentro da área. O árbitro não hesitou: marcou o pênalti e expulsou o defensor. Alex Silva cobrou com precisão e abriu o placar para os donos da casa.
Esse lance isolado implodiu todo o planejamento inicial de Eduardo Domínguez. A partir daquele instante, o jogo virou um duro teste de sobrevivência. Com um homem a menos em campo, o time visitante não conseguiu recompor suas linhas defensivas. A saída de bola simplesmente desapareceu. O controle do meio-campo passou a ser ditado inteiramente pelo Ceará.
Empurrado por uma torcida inflamada, o Vozão encurralou o adversário. O segundo gol era apenas uma questão de tempo e de paciência. Ele veio com requintes de crueldade ainda no primeiro tempo. Fernandinho avançou em velocidade pela direita e finalizou cruzado. Na tentativa desesperada de corte, Renan Lodi chutou a bola nas costas de Everson, que rebateu direto para o fundo da rede. Um gol contra que desenhava a eliminação.
A redenção improvável no apagar das luzes
O desempenho da equipe de Minas Gerais ao longo de quase 90 minutos foi assustadoramente apático. O time mandante, mesmo disputando uma divisão inferior, ditou o ritmo e a intensidade. Aos dez minutos da etapa final, Dieguinho carimbou o travessão em uma cobrança de falta venenosa. Aos 30 minutos, Everson precisou operar um verdadeiro milagre em cabeçada perigosa de Giulio.
A primeira finalização real do Galo no segundo tempo aconteceu apenas aos 40 minutos. Um chute solitário de Cassierra, de fora da área, que resumiu a pobreza criativa da equipe na noite.
Quando a queda já parecia carimbada, o improvável aconteceu. Aos 45 minutos do segundo tempo, Cassierra encontrou uma brecha na marcação já desgastada. Ele serviu Kauã Pascini. O garoto de apenas 18 anos demonstrou uma frieza típica de veteranos. Ele avançou, limpou o zagueiro e bateu forte para diminuir o placar. O heroico 2 a 1 igualou o placar agregado e arrastou a decisão para a marca da cal.
O protagonismo absoluto na marca da cal
Nos pênaltis, a dinâmica emocional e a pressão do futebol mudaram de lado. O goleiro alvinegro chamou a responsabilidade para si e se agigantou debaixo das traves. Everson defendeu as cobranças de Fernando e Rafael Ramos, frustrando completamente a torcida local.
Como se não bastasse fechar o gol, ele próprio pediu a bola para a batida decisiva. Com extrema categoria, converteu o último pênalti e selou a vitória dramática por 4 a 2 na disputa. Além do arqueiro, Cassierra, Cuello e Lyanco também estufaram a rede com sucesso. Alexsander foi o único visitante a desperdiçar sua cobrança.
Mais do que a vaga nas oitavas de final, as luvas do camisa 22 garantiram um alívio milionário aos cofres da instituição. A classificação rendeu R$ 3 milhões em premiação paga pela organização do torneio. Somados aos R$ 2 milhões da fase anterior, o cofre do clube já acumula R$ 5 milhões garantidos nesta edição da Copa do Brasil.
Os alertas vermelhos para a comissão técnica
Avançar de fase é a premissa básica do futebol de mata-mata, mas o futebol apresentado no Nordeste ligou todas as sirenes de alerta na Cidade do Galo. A forma como a vaga foi conquistada expõe fragilidades táticas preocupantes. Enfrentar uma equipe da segunda divisão e ser totalmente dominado por quase uma hora e meia é um sintoma claro de desorganização estrutural.
O elenco mineiro ostenta uma das folhas salariais mais altas do continente. Está recheado de jogadores de Seleção e com vasta experiência internacional. Mesmo assim, faltou maturidade coletiva no Castelão.
A expulsão precoce de Cissé é um atenuante inegável, mas não serve como justificativa definitiva. Equipes montadas para disputar grandes títulos precisam saber sofrer e competir em desvantagem numérica. Faltou capacidade de leitura para baixar as linhas de marcação de forma compacta. Faltou reter a posse no campo de ataque para dar respiro à defesa. As alterações promovidas pela comissão técnica tiveram impacto nulo na mecânica de jogo. O gol salvador foi fruto de um lampejo individual brilhante de Pascini, e não de uma construção coletiva.
O teste de fogo na volta para casa
A tensa noite serviu para evitar um vexame esportivo histórico, mas não curou as feridas de uma temporada ainda instável. O grupo continua transmitindo a sensação de que busca uma identidade ofensiva após as recentes trocas de comando e reposições no ataque.
As oitavas de final estão marcadas pela CBF para a primeira semana de agosto. Até lá, Eduardo Domínguez tem a obrigação inadiável de transformar o instinto de sobrevivência em evolução técnica consistente. O torneio não perdoará novos apagões.


