HomeEsportesAtléticoCobrança de Menin no aniversário do Atlético reacende um debate importante

Cobrança de Menin no aniversário do Atlético reacende um debate importante

Rubens Menin escolheu o aniversário de 118 anos do Atlético para soltar uma frase que bate direto no coração do debate sobre o futuro do clube: “Se a gente não abre espaço, eles vão para Real Madrid, Atlético de Madrid”. Em entrevista à Itatiaia, o dono da SAF disse que o Galo tem “uns 10” jovens com potencial de aproveitamento e tratou a base como um dos pilares da gestão em 2026.

A fala tem peso porque não soou como discurso genérico de dirigente em dia festivo. Soou como cobrança. E cobrança pública. Menin praticamente colocou a comissão técnica, a direção de futebol e a própria lógica de montagem do elenco diante de uma escolha: ou o Atlético abre espaço para os meninos, ou continuará vendo talento escapar cedo demais.

Isso ajuda a explicar por que a frase gerou tanto barulho. O clube ainda convive com dívida acima de R$ 1 bilhão, trabalha para receber um aporte de até R$ 500 milhões dos próprios donos e, ao mesmo tempo, tenta tocar o projeto “Galo 2030”, que prevê melhora do perfil da dívida, investimento estrutural e uma base entre as três melhores do país.

Nesse contexto, usar mais os jovens deixa de ser apenas uma opção técnica. Vira necessidade estratégica.

O que Menin quis dizer de verdade

A frase sobre “abrir espaço” carrega duas mensagens ao mesmo tempo.

A primeira é esportiva. Menin citou Mamady Cissé como exemplo e disse que o Atlético precisa dar minutos à “meninada” porque ela “faz a diferença”. Ou seja: não se trata só de formar bem no sub-17 e no sub-20. Trata-se de levar isso ao elenco principal.

A segunda é econômica. Quando um jovem não encontra caminho no profissional, o clube perde duas vezes: perde competitividade e perde valor. Foi exatamente por isso que a venda de Alisson virou referência recente.

O atacante foi negociado com o Shakhtar por cerca de 14 milhões de euros, com o Atlético ficando com 80% da operação, algo em torno de R$ 69 milhões, além de manter percentual futuro. É o tipo de negócio que dá saudade no campo, mas também reforça o caixa.

Por isso, a fala de Menin não parece apenas um elogio à base. Parece um aviso de rota. O Atlético não consegue mais se sustentar só na lógica de contratar medalhões, pagar alto e esperar que a conta feche depois. O clube já deixou claro, inclusive, que precisa equilibrar investimento em chegadas com vendas relevantes ao longo da temporada.

O Atlético vai parar de contratar medalhões?

Parar, não. Mas o discurso do dono da SAF empurra o clube para um equilíbrio diferente. Menin falou em três passos para 2026: consolidar a base, melhorar o perfil da dívida e, por fim, fortalecer o time de futebol. Isso sugere uma ordem de prioridade mais racional do que emocional.

Na prática, o Atlético ainda vai buscar jogadores prontos quando entender que o elenco precisa. Só que a tendência é de um filtro maior. O espaço dado aos jovens passa a ser visto não como favor, mas como peça central do modelo esportivo e financeiro.

Esse é o ponto mais ácido da fala de Menin no aniversário do clube. Ele não falou só sobre promessa. Falou sobre urgência. E, quando o principal dono da SAF faz isso publicamente, a mensagem interna é clara: o futuro do Atlético depende menos de achar mais um nome pronto no mercado e mais de parar de bloquear a própria base.

O debate está aberto — e vai cobrar resposta rápida

O torcedor, claro, vai dividir opiniões.

Parte vai entender a fala como lucidez, sobretudo em um clube que ainda tenta respirar financeiramente. Outra parte vai enxergar risco de usar a base como desculpa para investir menos no elenco. As duas leituras são compreensíveis.

Mas uma coisa parece difícil de negar: Menin elevou o tema de patamar. Depois dessa declaração, cada contratação de nome mais experiente e cada jovem sem espaço vão virar argumento contra o próprio discurso da SAF. E isso aumenta a pressão para que o Atlético mostre, já em 2026, que a frase do aniversário não foi só efeito de ocasião.

Anna Millard
Anna Millard
Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto - UFOP, é apaixonada por contar histórias e conhecer pessoas. Tem ampla experiência em jornalismo esportivo e passou pelo setor público e em assessoria de imprensa.