HomeEsportesAtléticoAtlético: R$ 500 milhões de Menin não cria novo time, mas muda...

Atlético: R$ 500 milhões de Menin não cria novo time, mas muda a realidade

O Atlético está prestes a receber um aporte de até R$ 500 milhões de Rubens Menin e Rafael Menin. Segundo o CEO Pedro Daniel, a operação deve ser concluída na primeira quinzena de abril e tem alvo claro: tirar peso da dívida bancária e aliviar o caixa do futebol.

Esse é o ponto que mais interessa ao torcedor. O dinheiro não foi desenhado para uma janela agressiva de contratações. Foi desenhado para atacar a parte da dívida que mais machuca o dia a dia: juros altos, pressão de curto prazo e necessidade constante de reorganizar caixa para pagar banco.

No último balanço, a dívida do Atlético apareceu em R$ 1,8 bilhão, com cerca de R$ 941 milhões em débitos bancários. Já no retrato mais recente dado pelo CEO, o passivo está “na casa de R$ 1,7 bilhão” e pode cair para algo perto de R$ 1,2 bilhão com a operação. Ou seja: o aporte não zera o problema, mas reduz uma parte muito pesada dele.

O que muda de verdade na dívida do Atlético

A mudança mais importante não está só no tamanho da dívida. Está no tipo de dívida.

Hoje, o que sufoca o Atlético são justamente as obrigações bancárias caras. Em 2025, o clube pagou cerca de R$ 250 milhões só em juros. A expectativa com a reestruturação é derrubar essa conta para algo em torno de R$ 140 milhões em 2026. Isso significa menos dinheiro queimado para sustentar o passado e mais espaço para tocar o presente.

Pelo desenho explicado pelo CEO, a lógica da operação é retirar cerca de R$ 500 milhões a R$ 520 milhões do passivo do clube e levar essa obrigação para outra empresa do grupo dos acionistas. Na prática, o Atlético deixa de carregar esse trecho da dívida dentro da SAF como hoje ele carrega.

É por isso que o aporte muda a respiração do clube. Ele melhora fluxo de caixa, reduz estrangulamento financeiro e dá mais previsibilidade para o futebol. Mas também impõe um freio no discurso mais eufórico: não é um cheque de R$ 500 milhões para contratações. É um dinheiro para tirar o Galo de uma engrenagem cara demais.

Então o Atlético pode mudar de patamar?

Pode, mas não imediatamente.

O próprio Pedro Daniel foi claro ao dizer que o Atlético ainda não está financeiramente na primeira prateleira e que não terá, na próxima janela, capacidade para fazer investimentos do tamanho de Flamengo e Palmeiras. A meta do clube é outra: chegar perto desse patamar até 2030, com crescimento mais estruturado.

Essa sinceridade ajuda a matar a charada. O aporte não transforma o Atlético hoje em um clube pronto para gastar US$ 40 milhões em uma janela. O que ele faz é criar base para o clube parar de enxugar gelo e voltar a planejar médio prazo com menos sufoco.

A mudança de patamar, portanto, não começa com um nome de mercado. Começa com três coisas: menos juros, menos pressão bancária e mais capacidade de organizar receitas e orçamento do futebol. Quando isso acontece, o clube passa a errar menos, compra melhor e consegue sustentar elenco competitivo por mais tempo. Essa é a parte menos barulhenta da história, mas talvez a mais importante.

Onde o time pode realmente melhorar

O primeiro reflexo tende a ser de estabilidade, não de espetáculo.

Com menos dinheiro indo para juros, o Atlético ganha fôlego para manter competitividade, evitar vendas por aperto e trabalhar janelas com mais critério. Isso não garante craques imediatos, mas aumenta a chance de um planejamento mais consistente para 2026, 2027 e 2028.

Também existe um segundo efeito: o clube fica mais apresentável para um eventual investidor de fora no futuro. O próprio projeto Galo 2030 não descarta capital estrangeiro mais adiante, mas a ideia agora é arrumar a casa com dinheiro dos próprios donos.

No fim, o aporte dos Menin não compra um “novo Atlético” pronto. O que ele compra é algo que o clube precisa urgentemente: tempo, caixa e alívio. E, no futebol brasileiro, às vezes é exatamente isso que separa um time endividado de um clube que consegue voltar a competir de verdade.

Naiara Souza
Naiara Souza
Jornalista formada há quase dez anos pela Universidade Estácio de Sá, cobre o futebol há mais de cinco anos, focada em Cruzeiro, Atlético, Palmeiras e Flamengo, e também as notícias mais importantes sobre Belo Horizonte e Minas Gerais.