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Minas pode deixar de exportar apenas minério e ganhar indústria bilionária de terras raras

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Minas Gerais pode estar diante de uma mudança importante na forma como explora uma de suas maiores riquezas minerais. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) negocia financiar o Projeto Caldeira, empreendimento de terras raras avaliado em aproximadamente R$ 2,6 bilhões no Sul do estado. Mas o aspecto mais relevante da operação não está apenas no tamanho do investimento: o banco estuda apoiar a instalação de etapas industriais capazes de transformar o minério em produtos de maior valor agregado dentro do Brasil.

A negociação envolve a australiana Meteoric Resources, responsável pelo projeto, e a Lynas Rare Earths, companhia que anunciou em setembro um acordo para adquirir a mineradora por aproximadamente R$ 3,5 bilhões. Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo nesta quarta-feira (7), o BNDES também avalia uma possível participação societária no empreendimento, por meio da BNDESPar.

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Nenhuma das operações de financiamento foi aprovada até o momento. Ainda assim, as tratativas revelam uma possibilidade que ultrapassa a abertura de mais uma mina: fazer com que parte da riqueza gerada pelos minerais estratégicos permaneça no país por meio de atividades industriais.

Por que o financiamento pode mudar o futuro do Projeto Caldeira

O Projeto Caldeira está localizado na região de Poços de Caldas, abrangendo também áreas de Caldas e Andradas. O empreendimento reúne depósitos de terras raras utilizados na fabricação de motores elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e tecnologias de alta precisão.

A Meteoric estima recursos minerais de aproximadamente 1,6 bilhão de toneladas, enquanto o estudo definitivo de viabilidade prevê um investimento inicial de US$ 498 milhões, equivalente a cerca de R$ 2,6 bilhões.

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O projeto ainda não iniciou a produção comercial. Para isso, precisa avançar no licenciamento ambiental, concluir sua estrutura financeira e construir as instalações necessárias à operação.

É justamente nessa etapa que o BNDES poderá exercer um papel importante. De acordo com a reportagem da Folha de S.Paulo, a concessão de crédito é a possibilidade mais avançada nas negociações, embora ainda não exista definição sobre valores ou condições.

O banco também considera entrar como sócio minoritário por meio de sua área de participações. Nesse caso, o investimento poderia ocorrer em uma sociedade brasileira ligada ao projeto, sem necessariamente transformar o BNDES em acionista da matriz australiana.

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A diferença entre as modalidades é importante. Um empréstimo representa uma obrigação de pagamento para a empresa. Já a participação societária permitiria ao banco compartilhar os riscos e eventuais resultados econômicos do empreendimento.

Minas já atraiu compradores internacionais, mas ainda busca agregar valor

O interesse internacional pelo Projeto Caldeira não começou agora. Em julho, o Moon BH mostrou que a sul-coreana Posco International havia assinado um memorando para negociar a compra de até 30% da futura produção do empreendimento.

Na ocasião, a possibilidade de financiamento e transferência de tecnologia já aparecia entre os objetivos da aproximação comercial. Entretanto, o acordo com a empresa sul-coreana ainda não representava uma venda definitiva dos minerais.

Em setembro, o movimento ganhou outra dimensão. A Lynas anunciou a intenção de adquirir a Meteoric por aproximadamente R$ 3,5 bilhões, em uma operação que colocou o projeto mineiro no centro da estratégia de expansão de uma das maiores produtoras de terras raras fora da China.

A aquisição ainda depende de aprovações e não está concluída. Mesmo assim, o interesse da Lynas acrescentou uma característica relevante ao empreendimento: a potencial futura controladora já possui experiência no processamento industrial desses minerais, com operações na Austrália e na Malásia.

O desafio econômico está em definir onde essa experiência será aplicada. Se o minério extraído em Minas for enviado ao exterior para passar pelas etapas industriais mais sofisticadas, parte importante do valor gerado continuará fora do estado.

Por outro lado, uma estrutura de processamento instalada no Brasil poderia ampliar as atividades industriais associadas ao projeto, criando demanda por profissionais especializados, serviços técnicos e fornecedores.

O que significa deixar de vender apenas o minério

As terras raras passam por diferentes etapas até chegarem aos produtos utilizados pela indústria tecnológica. A primeira envolve a extração e o tratamento do material mineral, que pode resultar em um concentrado ou carbonato misto contendo diversos elementos.

Depois, é necessário separar esses elementos e produzir materiais com características específicas. Somente em etapas posteriores eles poderão ser utilizados na fabricação de componentes como ímãs permanentes.

O Brasil possui recursos minerais relevantes, mas a disponibilidade geológica não significa que domine todas as tecnologias necessárias para industrializá-los.

Por isso, o processamento é considerado estratégico. O valor econômico dos materiais aumenta à medida que avançam pela cadeia produtiva, embora a magnitude desse ganho dependa do produto, do mercado e dos custos industriais.

O possível envolvimento do BNDES surge justamente na tentativa de desenvolver essas etapas no território nacional.

O Projeto Caldeira integra uma carteira de 56 planos de negócios selecionados em 2025 por uma iniciativa conjunta do BNDES e da Finep voltada à industrialização de minerais estratégicos. As propostas apresentadas ao programa somavam R$ 45,8 bilhões em investimentos planejados, e o empreendimento mineiro está entre os dez mais avançados.

Esses números, porém, representam planos empresariais, não desembolsos já realizados pelo banco.

BNDES já negocia com outro projeto de terras raras em Minas

A movimentação também não ocorre isoladamente. Em setembro, o Moon BH mostrou que a australiana Viridis Mining iniciou conversas com a BNDESPar sobre uma possível participação societária no Projeto Colossus, igualmente localizado na região de Poços de Caldas.

Nesse outro empreendimento, o banco já havia aprovado R$ 77,5 milhões para a implantação de um centro de pesquisa e processamento de terras raras.

A diferença é que o financiamento da Viridis possui uma finalidade específica já anunciada, enquanto as tratativas envolvendo o Projeto Caldeira ainda não resultaram em uma operação aprovada.

A presença dos dois projetos demonstra como o Sul de Minas passou a concentrar iniciativas importantes para a formação de uma cadeia industrial de minerais críticos.

O interesse do banco de desenvolvimento pode ajudar a reduzir uma das principais dificuldades desses empreendimentos: a necessidade de levantar grandes volumes de capital antes do início da produção comercial.

O investimento ainda depende de decisões importantes

Mineração Minas Gerais
Mineração em Minas Gerais – Foto: Envato

Apesar das perspectivas, existem obstáculos que precisam ser superados antes que Minas possa contar com uma nova estrutura industrial de terras raras.

O Projeto Caldeira ainda depende do avanço das licenças ambientais, da conclusão da negociação entre Lynas e Meteoric, da definição dos financiadores e de uma decisão final de investimento.

Além disso, a instalação de etapas adicionais de separação e processamento no Brasil continua sendo uma possibilidade em avaliação, não um compromisso definitivo das empresas.

A eventual participação do BNDES também não garante que toda a cadeia produtiva será instalada em Minas Gerais.

O que mudou nesta semana foi a dimensão das negociações. Depois de atrair compradores internacionais interessados em sua futura produção e se tornar o principal ativo de uma aquisição bilionária, o Projeto Caldeira passou a aparecer também como candidato a receber financiamento público para sua implantação industrial.

Para Minas Gerais, o resultado mais importante dessa movimentação não será medido apenas pelo valor investido na mina, mas pela capacidade de transformar uma riqueza encontrada no subsolo em atividades industriais desenvolvidas no próprio estado.

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Anna Millard
Anna Millard
Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto. Tem experiência em jornalismo esportivo, cidades e economia. Passou pelo setor público em assessoria de comunicação e assessoria de imprensa.