Uma empresa que começou sua história vendendo livros usados em um modesto balcão na Galeria Ouvidor, no hipercentro de Belo Horizonte, acaba de entrar para o restrito clube das varejistas bilionárias do Brasil. A Livraria Leitura alcançou a marca histórica de R$ 1,043 bilhão em vendas em 2025, segundo os dados do novo Ranking TOP 300 do Varejo Brasileiro 2026, divulgado pelo Instituto Retail Think Tank (IRTT).
O feito coloca a companhia mineira em um novo patamar corporativo e coroa uma estratégia de expansão agressiva e silenciosa.
O marco financeiro ganha proporções ainda maiores quando analisado sob a ótica da história recente do mercado editorial brasileiro. Enquanto as redes que historicamente dominaram os corredores dos grandes shopping centers do país desmoronavam em crises profundas, a Leitura caminhou na direção oposta.
O mercado assistiu à derrocada de gigantes: a Saraiva fechou suas últimas lojas físicas e teve a falência decretada pela Justiça em 2023, enquanto a Livraria Cultura atravessou um doloroso processo de recuperação judicial, marcado por disputas nos tribunais e esvaziamento de prateleiras.
Nesse vácuo deixado pelas antigas líderes, a companhia mineira pisou no acelerador. A rede encerrou 2025 com 133 lojas e hoje já contabiliza 136 operações espalhadas por 25 estados, consolidando-se como a maior rede brasileira de livrarias físicas.
A ascensão sobre os escombros das antigas gigantes
A trajetória da Leitura liga dois extremos do varejo nacional. A história começou em 1967, quando os primos Emídio e Lúcio Teles abriram a Livraria Lê, um pequeno sebo focado na venda de livros usados para estudantes na Galeria Ouvidor. Em 1975, o negócio foi rebatizado como Livraria Leitura. Durante décadas, a expansão foi cautelosa e restrita a Minas Gerais. A primeira investida fora do estado ocorreu apenas no ano 2000, com a abertura de uma unidade em Brasília.
O salto nacional definitivo ganhou tração a partir de 2018, quando a rede somava cerca de 70 unidades. O movimento de expansão coincidiu perfeitamente com a asfixia financeira de Saraiva e Cultura. O atual presidente da companhia, Marcus Teles, já reconheceu publicamente que a saída de cena de concorrentes (incluindo também a francesa Fnac) gerou uma oportunidade de ouro para redes que estavam com as contas em dia.
Com o caixa no azul e sem dívidas, a Leitura começou a ocupar os cobiçados espaços físicos que as antigas líderes devolviam aos shoppings. O movimento foi estratégico: a empresa herdou pontos comerciais já maduros e habituados ao fluxo de consumidores de livros, reduzindo custos de implantação e garantindo capilaridade nacional em tempo recorde.
Diversificação: a receita de 14 milhões de livros e 100 mil itens
O crescimento físico alavancou o volume de vendas. De acordo com Marcus Teles, a rede comercializou cerca de 14 milhões de livros ao longo de 2025 — sendo que quase 1 milhão desses exemplares vieram do nicho de livros de colorir, um dos grandes fenômenos de vendas do ano.
No entanto, o verdadeiro escudo da Leitura contra as crises do setor está no modelo de negócios. As lojas da rede não dependem exclusivamente das obras literárias. Atualmente, os livros representam entre 62% e 63% do faturamento total da companhia. O restante da receita é garantido por uma curadoria agressiva de papelaria fina, material escolar, brinquedos, jogos, itens de cultura geek e presentes.
Com um portfólio de mais de 100 mil itens diferentes, a empresa transformou suas lojas em espaços de entretenimento e conveniência, promovendo sessões de autógrafos, clubes de leitura e palestras.
O faturamento de R$ 1,043 bilhão atribuído pelo IRTT corresponde a uma média de aproximadamente R$ 2,86 milhões movimentados diariamente ao longo do ano passado. Como a Leitura é uma empresa de capital fechado, a diretoria não costuma abrir seus balanços ao público, mas os números do ranking chancelam as estimativas do mercado de que o teto do bilhão havia sido finalmente rompido.
Mercado em recuperação impulsiona números
A guinada bilionária da Leitura também reflete um respiro no setor. O mercado brasileiro de livros voltou a registrar crescimento real. Dados da Nielsen BookScan, divulgados pelo Sindicato Nacional dos Editores de Livros, apontam a venda de 60,01 milhões de exemplares no país em 2025, movimentando R$ 3,08 bilhões (alta de 7,17% em volume e 8,14% em faturamento).
A companhia mineira, contudo, surfou acima dessa maré favorável. As vendas totais da rede saltaram cerca de 15% em 2025. Até mesmo as lojas maduras (abertas há mais de um ano) registraram um avanço orgânico de 9%.
Sustentando um exército de mais de 2.600 funcionários, a expansão acelerada contraria a tese de que o comércio eletrônico e os leitores digitais decretariam o fim imediato das grandes livrarias de rua e de shopping. A derrocada de concorrentes históricas não significou o fim do hábito de consumo presencial, mas sim uma drástica transferência de mercado. E nesse xadrez bilionário do varejo, foi uma empresa moldada no Centro de Belo Horizonte que ocupou a cadeira principal.


