Minas Gerais não precisa provar que sabe produzir música. O estado atravessou gerações criando repertórios que ganharam o Brasil e, em alguns casos, o mundo. O desafio contemporâneo é transformar essa força artística em uma cadeia mais profissional, capaz de registrar obras, formar público, circular por festivais e sustentar carreiras. É justamente nesse espaço que o Sistema Fecomércio-MG, por meio do Sesc em Minas, vem ampliando sua atuação.
O movimento ganhou uma peça nova em agosto com o Selo Sesc Minas Musical. A iniciativa reúne produção fonográfica, distribuição digital, promoção, apresentações e formação profissional. Nesta semana, o Sesc anunciou cinco oficinas gratuitas, entre 31 de agosto e 9 de setembro, sobre gestão de carreira, plataformas digitais, redes sociais, circulação em festivais e direitos autorais.
Somadas ao apoio da Fecomércio-MG ao Carnaval, Arraial de Belô e à Virada Cultural, as ações desenham uma estratégia mais ampla: tratar a música mineira não somente como patrimônio cultural, mas como uma atividade que precisa de estrutura para produzir, distribuir, encontrar público e gerar renda.
De Minas para o mundo, uma tradição que virou ativo
O Clube da Esquina projetou Milton Nascimento, Lô Borges e uma linguagem que se tornou referência da música brasileira. Mais tarde, Belo Horizonte viu surgir bandas como Skank, Pato Fu e Jota Quest, enquanto uma cena de metal construída na capital rompeu fronteiras de maneira pouco comum para um grupo brasileiro.
O maior símbolo internacional dessa história é o Sepultura. Formada em Belo Horizonte em 1984, a banda se tornou uma das referências mundiais do metal. A biografia oficial registra mais de 20 milhões de discos vendidos e apresentações ao lado de nomes como Metallica, Slayer e Black Sabbath.
A trajetória ajuda a ilustrar uma característica da música produzida em Minas: talento e identidade artística nunca faltaram. O salto entre uma cena local e uma carreira de maior alcance, porém, depende também de gravação, distribuição, circulação, promoção e gestão.
É sobre esses elos que o Selo Sesc Minas Musical procura atuar.
“Minas possui uma riqueza musical reconhecida nacionalmente. Com o Selo Sesc Minas Musical, queremos contribuir para que esses artistas alcancem novos públicos, fortaleçam suas trajetórias e tenham sua produção registrada”, explicou o presidente da entidade, Nadim Donato.
A primeira edição selecionou sete trabalhos de perfis bastante diferentes: Fabinho do Terreiro, Varanda, Deh Muss, EZKIEL, Guarda de Moçambique Nossa Senhora do Rosário e Santa Efigênia de Ouro Preto, Letícia Leal e Pelos. O catálogo transita por samba, indie rock, música afro-brasileira, rap, afrobeat, viola e outras linguagens.
Há também uma característica especialmente favorável aos artistas. O Sesc assume os custos de produção, gravação e distribuição dos trabalhos, enquanto as receitas provenientes da comercialização ficam com cada artista. A instituição não passa a administrar a carreira nem a agenda dos selecionados. A primeira edição reúne dois álbuns e cinco singles distribuídos nas principais plataformas digitais.
É uma atuação mais sofisticada do que simplesmente patrocinar um show. Cria uma infraestrutura ao redor da obra.
Música movimenta milhões, mas Minas ainda não mede todo o setor
Ainda não existe uma conta pública atual que permita afirmar com precisão quanto toda a indústria musical movimenta anualmente em Minas Gerais.
O dado recente do Ecad oferece uma parte desse retrato. Até outubro de 2025, foram arrecadados mais de R$ 79 milhões em direitos autorais de execução pública de música em Minas, crescimento de 6% frente ao mesmo período de 2024. Shows e eventos responderam por 45% dessa arrecadação. Belo Horizonte, sozinha, concentrou 25% do total estadual.
Esse número não contempla integralmente bilheteria, cachês, patrocínios, produção técnica, alimentação, transporte, hotelaria e uma longa cadeia de serviços ativada por shows e festivais.
A ausência de um indicador consolidado é tão evidente que chegou à Assembleia Legislativa de Minas Gerais. Projeto apresentado neste mês propõe a criação da política Minas da Música e prevê um relatório bienal de indicadores econômicos, chamado de “PIB da Música”, para medir valor adicionado, empregos e impacto do turismo ligado a feiras, festivais e eventos musicais.
Outros números revelam a dimensão econômica que a música pode alcançar quando ocupa a cidade. O Carnaval de Belo Horizonte de 2026 reuniu 6,6 milhões de foliões, incluindo 349 mil turistas, e movimentou aproximadamente R$ 1,4 bilhão, segundo o balanço final da Prefeitura.
A Fecomércio-MG entrou diretamente nessa engrenagem
Em fevereiro, o Sistema Fecomércio-MG e a Prefeitura de Belo Horizonte anunciaram R$ 7 milhões em investimentos culturais. Foram R$ 2 milhões destinados ao Carnaval de 2026 e outros R$ 5 milhões para uma agenda que contempla Virada Cultural, Festival Internacional de Teatro, Arraial de Belô, aniversário de BH, celebrações dos dez anos do título da Pampulha como Patrimônio Mundial e Carnaval de 2027.
O calendário mineiro também comporta festivais consolidados. Somente em 2026, Belo Horizonte recebeu o Sarará, o Savassi Festival, o Festeja, e terá de volta o Planeta Brasil, maior festival fora do eixo Rio-São Paulo. É nesse ambiente que um selo musical ganha significado maior.
Ao aproximar gravação, distribuição, formação e palco, o Sistema Fecomércio MG e o Sesc em Minas constroem uma espécie de ponte entre a tradição e o futuro da música mineira.
Minas já demonstrou, de Milton Nascimento ao Sepultura e das grandes bandas de rock às novas cenas independentes, que consegue produzir artistas capazes de atravessar gerações e fronteiras. O mérito da nova iniciativa está em olhar também para aquilo que acontece antes e depois do aplauso: a estrutura necessária para que novos nomes possam construir trajetórias igualmente duradouras.


