O mundo de 2075 projetado pelo Goldman Sachs tem uma aparência bem diferente da ordem econômica que marcou o século 20. China, Índia e Estados Unidos ainda formariam o núcleo central da economia global, mas o grupo das maiores potências passaria a incluir, com muito mais peso, países hoje tratados como emergentes: Indonésia, Nigéria, Paquistão, Egito e Brasil.
No estudo The Path to 2075, o banco projeta que o Brasil será a 8ª maior economia do mundo em 2075, com PIB de US$ 8,7 trilhões em valores reais de 2021. O país ficaria à frente de Alemanha e Reino Unido, duas economias que historicamente ocupam o topo da hierarquia global. A mudança não significa que o brasileiro médio será mais rico que o alemão ou o britânico.
Significa que o tamanho total da economia brasileira, somando população, produtividade e crescimento acumulado, continuaria entre os maiores do planeta.
O ranking projetado pelo Goldman Sachs para 2075 é este (clique nos países para ver dados):
O dado mais chamativo não é apenas a posição brasileira. É a troca de eixo. O G7, que durante décadas concentrou renda, indústria, tecnologia, moeda forte e poder diplomático, perde espaço relativo para países populosos da Ásia, da África e da América Latina. O centro de gravidade da economia mundial não desaparece do Ocidente, mas fica muito menos ocidental.
As 10 maiores economias do planeta em 2075
Projeção de PIB mostra uma mudança no centro de gravidade da economia mundial, com avanço da Ásia, presença forte de emergentes e o Brasil dentro do top 10.
Ranking projetado por PIB
O eixo do dinheiro muda de lugar
A projeção indica um mundo menos concentrado no eixo Estados Unidos-Europa e mais puxado por população, urbanização, produtividade e crescimento de grandes mercados emergentes.
Brasil fica entre os maiores, mas com desafio conhecido
O Brasil aparece em 8º lugar no cenário de 2075. É uma posição relevante, mas também carrega um aviso. O país estaria no top 10 principalmente por escala: mercado consumidor grande, recursos naturais, agro, energia, mineração, indústria, serviços e uma população ainda expressiva. Não é uma projeção de salto automático para renda alta.
Esse detalhe importa. PIB total mede o tamanho da economia. PIB per capita mede, de forma imperfeita, o padrão médio de renda. Um país com muita gente pode ser gigante no ranking global e, ao mesmo tempo, conviver com produtividade baixa, infraestrutura ruim, desigualdade e serviços públicos pressionados.
O Goldman Sachs faz justamente essa distinção ao tratar da convergência entre emergentes e economias ricas. Países como Brasil, Índia, Indonésia, Nigéria e Egito podem crescer em participação no PIB mundial, mas a distância de renda por habitante em relação a Estados Unidos, Alemanha e Reino Unido tende a continuar grande se produtividade, educação, investimento e instituições não avançarem.
Para o Brasil, esse é o ponto central da projeção. Estar no grupo dos maiores não resolve, por si só, os problemas internos. O país pode ser uma potência em energia limpa, alimentos, minério, água, biodiversidade e mercado consumidor. Mas precisa transformar essas vantagens em tecnologia, indústria sofisticada, logística eficiente, inovação e produtividade.
China, Índia e EUA formam o novo topo
A liderança projetada para a China confirma uma tendência já em curso: a ascensão asiática como força econômica dominante. O estudo prevê que a China ultrapasse os Estados Unidos como maior economia por volta de 2035. Em 2075, o país chegaria a US$ 57 trilhões, ligeiramente acima da Índia e dos EUA.
A Índia é a grande história demográfica e econômica do século. Com população jovem, mercado interno enorme e urbanização ainda em andamento, o país aparece em 2º lugar, praticamente empatado com os Estados Unidos. A diferença é que a Índia ainda terá caminho longo para converter tamanho econômico em renda média, infraestrutura e poder tecnológico comparável ao americano.
Os Estados Unidos caem para o 3º lugar no ranking, mas isso não significa decadência simples. A economia americana continuaria gigantesca, rica, inovadora e central no sistema financeiro, militar e tecnológico. A perda é relativa: outros países crescem mais rápido, puxados por população, urbanização e convergência de renda.
A mudança real está logo abaixo. Indonésia, Nigéria, Paquistão e Egito aparecem entre as sete maiores economias do mundo. A presença desses países mostra que demografia continuará sendo uma das grandes forças do século. Nações com população grande e jovem podem ganhar participação econômica se combinarem estabilidade, investimento, educação, infraestrutura e abertura produtiva.
O poder mundial fica mais multipolar
O ranking de 2075 desenha um mundo menos concentrado nos países ricos tradicionais. Europa perde espaço no top 10. Alemanha e Reino Unido ainda aparecem, mas nas últimas posições. Japão, França, Itália e Canadá deixam de figurar entre os dez maiores nessa projeção.
Essa redistribuição muda mais do que estatísticas econômicas. Ela mexe com comércio, cadeias produtivas, diplomacia, moedas, organismos internacionais, rotas marítimas, investimentos e disputas por energia, tecnologia e alimentos. Um mundo em que Nigéria, Indonésia, Paquistão e Egito estão entre os maiores mercados obriga empresas, governos e investidores a olharem para regiões que durante muito tempo foram tratadas como periféricas.
Para o Brasil, há oportunidade e risco. A oportunidade está em vender para mercados maiores, diversificar parceiros, atrair investimentos e usar sua força em alimentos, energia e minerais críticos. O risco é repetir um padrão antigo: exportar bens básicos, importar tecnologia e crescer menos do que poderia.


