O Google inaugurou seu segundo centro de engenharia no Brasil, agora em São Paulo, dentro do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), na Cidade Universitária. A nova unidade terá capacidade para até 400 colaboradores e será voltada a projetos de inteligência artificial, segurança digital, privacidade, acessibilidade e startups. Mas o anúncio não apaga Belo Horizonte, e nem tenta.
A história do Google no Brasil começou em Minas, com a compra da startup Akwan, criada por pesquisadores da UFMG, e BH segue como base técnica estratégica da empresa no país.
A expansão paulista amplia um modelo que nasceu mineiro.
Onde fica e o que vai ter
O novo centro do Google fica no Edifício Adriano Marchini, dentro da iniciativa IPT Open, criada para aproximar empresas de universidades, pesquisadores e startups.
A unidade vai abrigar:
- O primeiro Google Safety Engineering Center (GSEC) da América Latina — dedicado a segurança digital, combate a fraudes e proteção de privacidade
- O primeiro Accessibility Discovery Center (ADC) da região — voltado a criar produtos mais inclusivos para pessoas com deficiência
- O Google Campus, com foco em startups que usam inteligência artificial, incluindo frentes de deep tech, soluções agênticas e martech
O Google informou que o GSEC paulista será conectado à rede global de unidades de segurança da empresa, que colaboram com autoridades, pesquisadores e organizações para enfrentar ameaças digitais.
A história começou em BH, e continua
O primeiro centro de engenharia do Google na América Latina nasceu em Belo Horizonte depois que a empresa comprou a Akwan Information Technologies, em 2005. A Akwan era uma startup criada por professores e estudantes da UFMG, especializada em tecnologia de busca.
A compra trouxe ao Google uma equipe técnica de alto nível, formada dentro da universidade federal mineira. A unidade mineira não ficou apenas como memória histórica — virou laboratório global. De lá saíram contribuições para:
- Melhorias na Busca do Google
- Sistemas de combate a spam e phishing
- Recursos do Family Link
- Soluções ligadas ao Pix em produtos como Google Lens e Circule para Pesquisar
Em 2025, o próprio Google anunciou a expansão do escritório de engenharia em BH, com novo andar e capacidade adicional, ao mesmo tempo em que preparava a abertura do centro paulista.
Por que o Brasil virou prioridade estratégica
O Google não instalou centros de engenharia no Brasil por acidente. Há quatro razões que explicam a aposta:
Talento técnico. O país tem universidades fortes, comunidades de desenvolvedores e profissionais acostumados a criar soluções para um mercado grande e diverso. A Akwan foi a prova de que engenharia brasileira pode operar em escala global.
Escala de mercado. O Brasil é um dos maiores mercados digitais do mundo, com uso intenso de Android, YouTube, Google Busca, Maps, Gmail e Google Cloud. Produtos testados aqui precisam funcionar para milhões de pessoas em diferentes níveis de renda e conectividade.
Complexidade dos problemas. Fraudes, roubo de celulares, phishing, golpes financeiros e desinformação são desafios reais no país. Soluções desenvolvidas para o mercado brasileiro têm potencial de ser exportadas para outros mercados emergentes com problemas semelhantes.
Inteligência artificial. A IA está mudando como as pessoas pesquisam, trabalham e se protegem online. O Google precisa de centros capazes de desenvolver produtos com visão local e aplicação global.
São Paulo e BH: funções complementares, não concorrentes
A divisão entre os dois centros faz sentido pelo perfil de cada cidade.
Belo Horizonte tem tradição técnica consolidada em ciência da computação — especialmente pela UFMG —, uma base de engenheiros que já comprovou capacidade de criar produtos com impacto global e história direta com a engenharia do Google no Brasil.
São Paulo entrega escala de mercado, proximidade com a USP, acesso a startups, fundos de investimento, grandes empresas, setor financeiro e o ecossistema de tecnologia corporativa mais denso do país.
A Agência Minas destacou que a ampliação da sede de BH, no Boulevard Corporate Tower, acontece em paralelo à inauguração paulista — reforçando o papel do estado como polo técnico de engenharia e inovação.
Segurança digital e IA no centro da estratégia
A abertura do GSEC em São Paulo mostra onde está o foco imediato do Google no Brasil.
A inteligência artificial aumentou os riscos digitais: a mesma tecnologia que facilita automação e produtividade também amplia golpes, deepfakes, ataques cibernéticos e produção de conteúdo malicioso. Empresas globais precisam de equipes locais capazes de entender comportamentos de risco em mercados específicos — e o Brasil, com uso massivo de pagamentos instantâneos, redes sociais e aplicativos, é um campo prioritário.
O Accessibility Discovery Center indica outro foco: criar produtos mais inclusivos. Isso aproxima engenheiros do Google de pessoas com deficiência, pesquisadores e comunidades que podem testar ferramentas e apontar melhorias reais.
O que Minas ganha com essa expansão
Mesmo com São Paulo ganhando o segundo centro, Minas sai fortalecida pelo contexto.
A narrativa de que tecnologia mineira pode ganhar o mundo — comprovada pela Akwan — é reforçada cada vez que o Google expande no Brasil. BH já tem a vitrine. O desafio agora é transformar essa vitrine em cadeia produtiva: atrair startups, data centers, laboratórios de IA, fundos de investimento e projetos universitários.
Isso depende de ambiente de negócios, formação de mão de obra qualificada e conexão entre setor público e privado. A presença histórica do Google em BH é um ativo que poucos estados brasileiros têm.
Brasil deixa de ser só mercado
A aposta do Google aponta uma mudança de papel. O Brasil não está sendo tratado apenas como país onde se vende anúncio, celular ou serviço de nuvem. Está sendo visto como território capaz de criar tecnologia para o mundo.
Quando uma big tech instala engenharia, traz empregos de alta qualificação, disputa por talentos, conexão com universidades e possibilidade de desenvolvimento de produtos globais.
O próximo desdobramento será observar como os centros de BH e São Paulo vão dividir projetos e contratar profissionais. Se a estratégia funcionar, o Brasil pode consolidar uma posição rara: base relevante de engenharia, IA, segurança e acessibilidade dentro de uma das maiores empresas do planeta.


