Os patinetes elétricos compartilhados estão prestes a retornar à paisagem urbana de Belo Horizonte, mas desta vez a promessa é de ordem na casa. A Prefeitura publicou o chamamento público (nº 01/2026) para credenciar empresas interessadas a partir de 4 de fevereiro de 2026.
O novo desenho tenta atacar os dois maiores traumas da experiência anterior (com Yellow e Grin): a concentração excessiva no “miolo rico” da cidade e a bagunça nas calçadas. Para isso, a Superintendência de Mobilidade (Sumob) criou uma espécie de “gatilho de equidade”.
A Regra “Robin Hood”: Quer o Centro? Leve a Periferia
O ponto mais inovador do edital é a divisão da cidade em 10 lotes (as nove regionais + a área central). Para evitar a corrida pelo filé mignon, a regra é clara: se a empresa quiser operar nas áreas nobres (Central, Centro-Sul e Pampulha), ela será obrigada a operar simultaneamente em pelo menos uma regional periférica.
Na prática, a PBH tenta impedir que o patinete seja um “brinquedo da Savassi” e vire uma solução real de transporte de última milha para quem mora nos bairros.
As Novas Regras do Jogo
Diferente da “terra sem lei” de 2019, o serviço volta com amarras técnicas e jurídicas:
- Frota Mínima: Cada empresa deve colocar pelo menos 300 patinetes na rua.
- Modelo: Sistema free floating (sem estação fixa), acionado por aplicativo.
- Custo Zero para a PBH: Não haverá dinheiro público; a operação é custeada pelas empresas.
- Prazo: O credenciamento vale por 30 meses.
O Fantasma de 2019 e a Segurança
Belo Horizonte ainda lembra do caos de cinco anos atrás. Em 2019, o Hospital João XXIII atendeu mais de 70 pessoas vítimas de acidentes com patinetes em apenas quatro meses. O episódio mais trágico foi a morte do engenheiro Roberto Pinto Batista Júnior na Avenida Paraná.
Para evitar a repetição do filme, o novo serviço chega sob o guarda-chuva da Resolução Contran nº 996/2023, que define limites claros:
- Velocidade máxima de fabricação de 32 km/h.
- Itens obrigatórios como velocímetro, campainha e sinalização noturna.
- Regras locais de velocidade (ex: máx. 6 km/h em áreas de pedestres e limite específico em ciclovias).
Análise: Teste de Maturidade
A volta dos patinetes é um teste de fogo para a mobilidade de BH. O modal pode resolver aquele trajeto “curto demais para carro, longo demais para ir a pé”. No entanto, o sucesso depende de três fatores: infraestrutura (ciclovias conectadas), fiscalização (para evitar calçadas bloqueadas) e a educação do usuário. Se o serviço ficar caro demais ou restrito demais, morre por inanição. Se virar bagunça, morre por rejeição popular. A PBH colocou as cartas na mesa; agora resta saber quem vai jogar.