Não há nada que ative mais a memória afetiva de um mineiro do que a combinação de um pastel de feira ou uma fatia de pizza de padaria com um refrigerante regional bem gelado. Muito antes de as gigantes multinacionais consolidarem seus monopólios nas gôndolas dos supermercados, Minas Gerais construiu uma cultura riquíssima de engarrafadoras locais.
Essas marcas, muitas vezes chamadas carinhosamente de “tubaínas” (termo popularizado em São Paulo, mas absorvido nacionalmente para designar refrigerantes regionais), representam muito mais do que nostalgia. Do ponto de vista econômico, a resistência dos refrigerantes mineiros é um case de sucesso corporativo. Segundo a Associação dos Fabricantes de Refrigerantes do Brasil (Afrebras), o setor de bebidas regionais é um motor vital para a geração de empregos no interior, enfrentando desafios imensos de competitividade tributária e logística contra conglomerados mundiais.
O segredo da sobrevivência dessas fábricas está em três pilares: preço competitivo, rede de distribuição capilarizada em cidades menores e, sobretudo, a adaptação perfeita ao paladar local (frequentemente mais doce e encorpado). Além disso, as fábricas do interior mineiro contam com uma vantagem geológica incomparável: a altíssima qualidade das fontes de águas minerais do estado.
Para celebrar essa herança cultural e econômica, o Moon BH listou 10 refrigerantes icônicos que foram inventados em Minas Gerais e você (provavelmente) não sabia.
Os clássicos da Região Metropolitana e Capital
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1. Mate Couro (Belo Horizonte) Patrimônio imaterial da capital, o Mate Couro foi criado em 1947 por uma família na região de Contagem/Belo Horizonte. Sua fórmula é um mistério industrial e uma exclusividade mundial: é o único refrigerante do mercado feito a partir da mistura de extratos de erva-mate, chapéu-de-couro e guaraná. Com um sabor singular — que as pessoas costumam amar ou odiar —, a marca resiste bravamente e continua sendo uma presença obrigatória nas festas infantis e lanchonetes da Região Metropolitana.
2. Guarapan (Belo Horizonte) Uma das maiores anomalias (e delícias) do mercado de bebidas. Criado em 1952 em Belo Horizonte pela então franqueada local da Coca-Cola (hoje sob o guarda-chuva da Coca-Cola Femsa), o Guarapan tem nome de guaraná, cor de guaraná, mas seu sabor e extrato são de maçã. O refrigerante foi uma estratégia da companhia para combater as marcas locais da época e acabou ganhando vida própria, tornando-se a bebida não oficial das pizzarias de bairro da capital mineira.
3. Del Rey (Ribeirão das Neves) Se existe um sinônimo de custo-benefício na mesa das famílias da Grande BH, é o Guaraná Del Rey. Produzido em Ribeirão das Neves, o refrigerante construiu um império nas periferias e nos supermercados de bairro ao oferecer um produto acessível em embalagens familiares. A empresa modernizou sua planta industrial na última década e diversificou os sabores, mantendo sua relevância intacta no cinturão metropolitano.
4. Jandaia (Esmeraldas) Fabricado na cidade de Esmeraldas, também na Região Metropolitana de BH, os refrigerantes Jandaia carregam uma tradição de décadas. A marca é particularmente famosa por seu refrigerante de maçã, que disputa o coração (e o paladar) dos consumidores locais com o próprio Guarapan, além de manter uma linha clássica de laranja e limão que abastece bares e mercearias da região.
O poder do interior: Sul de Minas, Triângulo e Zona da Mata
5. Guaraná Mineiro (Uberlândia) O que o Mate Couro é para BH, o Guaraná Mineiro é para o Triângulo Mineiro. Criado em 1965 em Uberlândia, o refrigerante não apenas domina as prateleiras do Triângulo, como expandiu suas fronteiras e é amplamente exportado para o estado vizinho de Goiás. Com um sabor marcante e mais adocicado, a fabricante se consolidou como uma potência econômica regional, patrocinando clubes de futebol locais e grandes eventos agropecuários.
6. Abacatinho (Ubá) Talvez o refrigerante mais exótico e exclusivo de toda a lista. Fabricado na cidade de Ubá, na Zona da Mata mineira, o Abacatinho possui uma fórmula que causa estranheza inicial, mas fidelidade absoluta: ele é feito a partir do extrato das folhas do abacateiro. O resultado é uma bebida levemente cítrica, refrescante e com uma identidade que não encontra paralelos no mercado nacional de bebidas gaseificadas.
7. Guaraná Jota Efe (Ouro Fino) O Sul de Minas é famoso por seu circuito das águas, e a indústria de bebidas soube aproveitar isso. Fabricado em Ouro Fino, o Guaraná Jota Efe é uma instituição sul-mineira desde meados do século passado. A pureza da água utilizada no processo industrial é apontada pelos consumidores locais como o grande diferencial que confere à bebida um sabor mais leve e menos artificial que o dos concorrentes de massa.
8. Mantiqueira (Passa Quatro) Também ancorado na riqueza hidromineral do Sul de Minas, o Guaraná Mantiqueira, produzido em Passa Quatro, é um clássico nas cidades da região da Serra da Mantiqueira. A marca sobreviveu à consolidação do mercado de bebidas focando estritamente em seu público regional e na distribuição de proximidade.
9. Guaraná Iate (Muriaé) Outro gigante da Zona da Mata. O Guaraná Iate é produzido na cidade de Muriaé e detém uma fatia impressionante do mercado micro-regional. Assim como outras fábricas do interior, o Iate formou a memória gustativa de gerações na região, dificultando a entrada agressiva de marcas globais em lanchonetes e padarias locais, onde o pedido “me desce um Iate” é rotina.
10. Guaraná Taí (Testado e lançado em Minas Gerais) Embora pertença à gigantesca The Coca-Cola Company, a história do Taí tem raízes profundas no solo mineiro. Em 1979, a multinacional americana precisava criar um produto para tentar quebrar a hegemonia do Guaraná Antarctica no Brasil. A empresa escolheu Minas Gerais como seu principal mercado de testes, justamente por ser o estado com maior resistência e apego aos guaranás locais. O sucesso absoluto nas prateleiras mineiras foi o que viabilizou o lançamento nacional do produto no ano seguinte, tornando a marca um ícone dos anos 80 e 90.
A próxima vez que você abrir um refrigerante de rótulo regional em uma cidade do interior mineiro, lembre-se: você está consumindo não apenas água gaseificada e açúcar, mas uma cadeia produtiva de resistência que gera milhares de empregos fora dos grandes eixos financeiros do país.
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