À medida que o xadrez para a sucessão na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) ganha contornos complexos com o empate técnico entre o PL e os blocos progressistas, um nome começa a circular com força nos bastidores como a verdadeira alternativa de pacificação da Casa: o deputado estadual Ulysses Gomes.
Enquanto os holofotes miram o cabo de guerra ideológico, articuladores políticos de centro e de direita começam a avaliar uma candidatura que parecia improvável, mas que se mostra matematicamente viável e institucionalmente segura. O movimento baseia-se na busca por um perfil que consiga garantir o ativo mais precioso para os parlamentares: a independência do Poder Legislativo.
Em seu quinto mandato na ALMG, Ulysses Gomes construiu uma reputação que pode lhe trazer vantagens. Conhecido internamente como um deputado de bastidor e construtor de pontes, ele é classificado por colegas como um político que cumpre o que combina e que prioriza o diálogo institucional em detrimento do radicalismo.
Conversamos com três deputados, de diferentes matrizes políticas, e para eles, a ascensão de Ulysses teria uma dupla utilidade prática:
- Retirar o PT do modo oposição: Ao assumir a liderança da Mesa Diretora, a bancada da esquerda e da oposição é integrada à governabilidade da Casa, esvaziando discursos de obstrução e facilitando o trâmite de pautas complexas de interesse do Estado.
- Postura firme nos momentos de tensão: Se a condução exige diálogo, os deputados avaliam que Ulysses tem o estofo necessário para endurecer o jogo quando os direitos do Parlamento forem ameaçados pelo Palácio Tiradentes, uma garantia que muitos temem perder sob uma presidência alinhada ao Executivo.
O fantasma da submissão ao Executivo
O grande argumento que empurra deputados de centro para a órbita de reflexão sobre Ulysses é o risco da perda de autonomia. A leitura predominante nos corredores é de que um presidente oriundo do “centrão” ou da base direta de apoio ao governador eleito Cleitinho Azevedo poderia se aliar muito facilmente ao Executivo, perdendo completamente a autonomia da Assembléia.
Em um cenário onde o governo do Estado controle tanto o Palácio Tiradentes quanto a Mesa Diretora da ALMG, o Legislativo corre o risco de virar um mero homologador de projetos, diminuindo o poder de barganha e as prerrogativas individuais dos deputados. A escolha de um nome como Ulysses funcionaria como um “seguro institucional” para manter os dois poderes operando em órbitas separadas.
Outro fator são as emendas parlamentares e indicações de execução orçamentária do Governo de Minas. Sem independência, sobraria menos espaço para negociações e para acelerar trâmites. Depois de uma eleição ideológica, apresentar resultados para as bases pode garantir um próximo mandato.
Doorgal Andrada e João Magalhães também aparecem como possibilidade
A busca por uma candidatura de consenso que unifique a casa não se limita às articulações em torno de Ulysses Gomes. Outros dois nomes de forte expressão parlamentar figuram no topo da lista de apostas e intensificaram as conversas de bastidor nas últimas semanas: os deputados reeleitos Doorgal Andrada (PP) e João Magalhães (PSD).
Ambos possuem perfis com capacidade de aglutinação, representando forças políticas consolidadas dentro do Parlamento mineiro para liderar a Casa.
Doorgal Andrada: a força técnica da CCJ e a renovação
Aos 33 anos, Doorgal Andrada (PP) consolidou-se como uma das principais lideranças da nova geração de parlamentares em Minas Gerais. Reeleito para o seu terceiro mandato consecutivo com uma votação expressiva que superou a marca dos 100 mil votos, o deputado ganhou musculatura institucional ao assumir a presidência da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), a porta de entrada de todos os projetos da Casa.
- Os trunfos de bastidor: pela condução da CCJ, Doorgal construiu um trânsito técnico e amigável com parlamentares de todas as correntes ideológicas, da oposição à base do governo. Sua candidatura também carrega o apelo de descentralização regional.
- O cenário de debate: embora seja visto como um nome técnico e conciliador, o debate em torno de seu nome passa pela pouca idade e pela avaliação de como sua legenda, o PP, se posicionará na base de apoio do governador eleito Cleitinho Azevedo, um fator que deputados mais zelosos pela independência da Casa costumam ponderar.
João Magalhães: a experiência da liderança e o peso partidário
Se Doorgal Andrada traz o vigor da nova geração, João Magalhães (PSD) carrega o peso da experiência e do conhecimento da máquina pública. Em seu quarto mandato estadual, Magalhães ganhou ainda mais relevância interna ao atuar como líder do governo na ALMG, posição que exige alta capacidade de diálogo e cumprimento de acordos.
- Os trunfos de bastidor: o parlamentar conta com sólida interlocução junto a prefeitos e lideranças municipais de todo o estado. Além disso, seu partido, o PSD, detém uma das maiores bancadas do Legislativo mineiro, o que o coloca naturalmente como candidato.
- O cenário de debate: nas conversas de bastidor sobre Magalhães é justamente o seu papel recente na articulação direta com o Poder Executivo. Parte dos deputados avalia se o seu perfil, embora altamente qualificado, poderia ser visto como excessivamente alinhado ao Palácio Tiradentes em um momento onde a Assembleia busca reafirmar sua autonomia.


