O ex-ministro das Comunicações no governo Bolsonaro, Fábio Faria, marido de Patrícia Abravanel e genro de Silvio Santos, foi o responsável por aproximar Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, segundo mensagens analisadas pela Polícia Federal.
Um relatório da PF que se tornou público nesta terça-feira (1º) mostra Faria compartilhando com Vorcaro o contato atribuído ao magistrado, organizando encontros entre os dois e, posteriormente, aparecendo em conversas relacionadas ao contrato firmado pelo banco com o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.
Os documentos indicam que Moraes e Vorcaro teriam se encontrado ao menos seis vezes. Faria aparece já na articulação dos primeiros contatos, no fim de 2023.
A Polícia Federal não concluiu que Fábio Faria tenha cometido crime por essas intermediações. Procurado pela imprensa, o ex-ministro afirmou que recomendou o escritório de Viviane para um processo em São Paulo, mas disse que nunca participou de reunião com a banca e que desconhecia os valores acertados.
Os primeiros contatos e a troca de telefones em Brasília
A cronologia recuperada pela investigação policial começa em dezembro de 2023. O relatório detalha que Faria participou da logística de um encontro no dia 21 daquele mês, chegando a pedir a Vorcaro os dados do veículo que seria utilizado para chegar ao local combinado.
Poucos dias depois, a dupla voltou a tratar de uma nova reunião. Foi exatamente nesse momento que o ex-ministro enviou ao banqueiro um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. O número foi imediatamente registrado na agenda do empresário.
A articulação continuou no dia seguinte, quando Faria conversou com Vorcaro sobre a possibilidade de um almoço. A troca de mensagens gerou uma movimentação interna rápida no banco. O empresário determinou que uma funcionária preparasse uma recepção especial em Campos do Jordão, exigindo uma experiência impecável para convidados que ele próprio classificou como figuras extremamente restritas. Essa sequência de eventos ganha peso para a investigação por anteceder a assinatura do acordo jurídico com a esposa do ministro.
A negociação do contrato milionário e os metadados
No mês de janeiro de 2024, o teor das conversas mudou de foco e passou a envolver tratativas comerciais. As mensagens capturadas mostram Faria perguntando se o banqueiro havia respondido a Viviane. Vorcaro questionou o ex-ministro se o acordo abrangeria três anos de prestação de serviços.
A resposta indicou que o prazo original seria de quatro anos, mas que haveria flexibilidade para reduzir o período. Dois dias após esse diálogo, Viviane Barci de Moraes encaminhou a versão final do documento, estimando uma relação comercial de aproximadamente R$ 131 milhões.
Um detalhe técnico chamou a atenção da equipe pericial. A Polícia Federal encontrou nos metadados do arquivo digital a informação de que a última modificação no texto do contrato havia sido feita por um usuário identificado com o nome do próprio ministro Alexandre de Moraes. O relatório policial registra o fato como uma constatação técnica, sem emitir um juízo de valor ou apontar uma irregularidade imediata. Paralelamente, Faria continuou organizando jantares e encontros rápidos com o magistrado para os meses seguintes.
Cobranças de pagamentos e a defesa do ex-ministro
A investigação também localizou diálogos cobrando agilidade nas transferências bancárias. Em meados de março de 2024, Faria enviou uma mensagem a Vorcaro avisando que o pagamento não poderia atrasar, utilizando um apelido informal para se referir à autoridade.
Imediatamente, o banqueiro acionou sua equipe financeira exigindo prioridade absoluta na quitação daquela fatura, classificando a obrigação como a mais importante da empresa. A polícia identificou na sequência uma transferência de R$ 3,4 milhões do Banco Master para a conta do escritório de advocacia.
Marido da apresentadora Patrícia Abravanel e ex-integrante do primeiro escalão do governo Jair Bolsonaro, Fábio Faria possui trânsito livre nos bastidores de Brasília. Procurado para comentar o relatório, ele confirmou ter recomendado o escritório de Viviane para atuar em um processo específico em São Paulo.
O ex-ministro negou ter participado de qualquer reunião formal com os advogados e garantiu que desconhecia completamente os valores milionários negociados entre a instituição financeira e a banca jurídica. O processo tramita publicamente no STF sob a relatoria do ministro André Mendonça.


