Aécio Neves desistiu de disputar a Presidência da República em 2026 e confirmou que o PSDB deve ficar sem candidato próprio ao Planalto. A decisão foi revelada pela Folha de S.Paulo nesta quinta-feira (9/7), um dia depois de a pesquisa Meio/Ideia mostrar o deputado mineiro com apenas 2% das intenções de voto em um cenário de primeiro turno com Lula e Flávio Bolsonaro.
A pesquisa ouviu 1.500 pessoas entre 3 e 6 de julho, por telefone, com margem de erro de 2,5 pontos percentuais e registro no TSE sob o número BR-05628/2026. No cenário com Flávio Bolsonaro como nome do bolsonarismo, Lula aparece com 40,4%, Flávio tem 32%, Ronaldo Caiado marca 4%, Romeu Zema registra 2,5%, e Aécio Neves e Renan Santos aparecem empatados com 2% cada.
O próprio Aécio não atribuiu o recuo diretamente ao levantamento, mas a sequência escancara o limite eleitoral da tentativa tucana de voltar ao centro da disputa nacional. Como mostrou o Moon BH, seu plano era lançar a candidatura após a Copa do Mundo.
Para Minas Gerais, o recuo tem peso duplo. Aécio é deputado federal, natural de Belo Horizonte e atual presidente nacional do PSDB. Ele foi governador mineiro por dois mandatos, senador e candidato presidencial em 2014. Agora, volta ao papel de articulador de partido, justamente no momento em que a centro-direita mineira tenta encontrar espaço entre a polarização Lula-Flávio e a força estadual de nomes como Romeu Zema, Mateus Simões e Cleitinho.
A rejeição que travou a candidatura
O partido cogitou Aécio depois do desgaste de Flávio Bolsonaro em meio à revelação de conversas com Daniel Vorcaro, do Banco Master. Mas o tucano carregava dois obstáculos difíceis de superar: baixa intenção de voto e alta rejeição.
Em junho, pesquisa Nexus já havia mostrado Aécio como o pré-candidato ao Planalto com maior rejeição entre os nomes testados, com 62% dizendo que não votariam nele de jeito nenhum.
Outro levantamento, AtlasIntel/Bloomberg, divulgado pelo Poder360 em 1º de julho, também colocou o mineiro no topo do ranking de rejeição, com 54%, tecnicamente empatado com Flávio Bolsonaro. Para um partido pequeno, lançar um nome com rejeição alta poderia consumir energia sem abrir caminho ao segundo turno.
O tamanho da crise tucana

A desistência fecha uma volta histórica. Em 2014, Aécio foi o principal adversário de Dilma Rousseff e terminou o segundo turno com 48,36% dos votos, contra 51,64% da petista. Foi a última vez em que o PSDB ocupou o centro da disputa presidencial.
Depois vieram denúncias, o desgaste da Lava Jato, a perda de espaço para o bolsonarismo e o esvaziamento do partido que durante décadas polarizou com o PT.
O PSDB lançou candidatos em todas as eleições presidenciais de 1989 a 2018. Venceu duas, com Fernando Henrique Cardoso, e chegou ao segundo turno quatro vezes contra o PT. Em 2022, apoiou Simone Tebet no primeiro turno. A ausência em 2026 é um retrato da perda de protagonismo da sigla.
A estratégia de reconstrução para 2030
Aécio tenta apresentar o recuo como parte de uma estratégia mais longa, voltada à reconstrução do partido para 2030. Ele afirmou que o PSDB precisa ganhar tempo para construir um projeto de terceira via e escapar da armadilha da radicalização política.
O discurso tem lógica, mas não resolve o curto prazo. Sem candidato presidencial, o PSDB terá menos vitrine nacional, menos poder para organizar palanques próprios e mais dificuldade para segurar quadros estaduais.
A sigla também precisará decidir como se comportar em um eventual segundo turno entre Lula e Flávio. Aécio já indicou que o partido não deve apoiar nenhum dos dois e caminha para a neutralidade.
O que muda para Minas
Em Minas, a decisão abre outra pergunta: qual será o destino eleitoral de Aécio? O deputado não descartou disputar uma vaga ao Senado, cargo que já ocupou entre 2011 e 2019. Ele afirmou que ainda não tomou decisão e que sua prioridade é reconstruir o partido.
Uma candidatura ao Senado faria mais sentido do que uma nova aventura presidencial. Aécio ainda tem base, memória de governo e capilaridade no interior mineiro. Ao mesmo tempo, enfrentaria um cenário estadual mais fragmentado do que aquele em que construiu sua carreira.
A direita mineira hoje passa por bolsonaristas, pelo PSD de Mateus Simões, pelo Novo de Romeu Zema e pelo Republicanos de Cleitinho. A velha força tucana já não organiza sozinha o campo político local.


