Em março de 2026, a prefeita de Contagem, Marília Campos, é tida como o nome a ser batido na corrida pelas duas vagas mineiras no Senado Federal. Ela detém o “piso” do eleitorado de esquerda no estado. No entanto, o histórico mineiro e a dinâmica interna do Partido dos Trabalhadores (PT) acendem um alerta: o risco do chamado “efeito Dilma”.
O trauma de 2018: Quando a liderança não se converte em urna
O “efeito Dilma” refere-se à eleição de 2018, quando a ex-presidente Dilma Rousseff liderou todas as pesquisas de intenção de voto ao Senado em Minas Gerais, chegando à véspera do pleito com índices que sugeriam uma vitória tranquila.
- O desfecho: Dilma terminou a apuração em quarto lugar.
- A causa: A desidratação ocorreu pela combinação de uma forte “onda” de última hora e, principalmente, pela ausência de uma “dobradinha” eficiente. Em eleições com duas vagas, o eleitor tende a pulverizar o segundo voto, e candidatos que lideram isolados tornam-se alvos preferenciais de estratégias de voto útil e rejeição coordenada.
O empenho do PT: Prioridade nacional vs. Candidatura local
Um dos fatores que definem o sucesso de uma candidatura majoritária do PT em Minas é o grau de prioridade estabelecido pelo diretório nacional e pelo Presidente Lula. Historicamente, o PT em Minas muitas vezes é utilizado como peça de negociação para garantir palanques maiores ao governo estadual ou à presidência.

- O dilema de 2026: Se o PT priorizar a construção de uma aliança de centro para o Governo de Minas (apoiando nomes como Rodrigo Pacheco, por exemplo), a candidatura de Marília Campos pode sofrer com a falta de recursos e, principalmente, com a ausência de um “segundo nome” que ajude a fechar o voto da esquerda.
- O isolamento: Sem um empenho orgânico da militância e da máquina partidária em todo o estado — e não apenas na Região Metropolitana de BH —, Marília corre o risco de ficar restrita ao seu reduto eleitoral, enquanto nomes da direita se aglutinam no interior.
O sistema de dois votos: A armadilha da segunda vaga
Em 2026, cada eleitor vota em dois nomes para o Senado. Esse sistema é o que costuma produzir as maiores surpresas em Minas Gerais.
- A dispersão do voto: O eleitor de Marília Campos muitas vezes não possui uma segunda opção clara no campo da esquerda. Se o segundo voto desse eleitor migrar para um candidato de centro ou até de centro-direita por questões regionais, ele acaba ajudando a eleger os adversários que, na soma total, podem ultrapassar a candidata petista.
- A convergência da direita: Candidatos como Carlos Viana (Podemos) Marcelo Aro (PP), e Domingos Sávio (PL), embora dividam votos hoje, tendem a afunilar o apoio na reta final. Se a direita conseguir orientar seus eleitores a votar em dois nomes do mesmo campo (“dobradinha”), a chance de ocuparem as duas cadeiras aumenta drasticamente.
O fator Alexandre Silveira e a divisão interna
Outro componente de incerteza é a presença de Alexandre Silveira (PSD). Ministro do governo Lula e com forte influência no Vale do Aço, Silveira disputa o mesmo “pool” de apoio institucional do governo federal.
Se o Palácio do Planalto dividir o apoio entre Marília e Silveira de forma desequilibrada, ou se houver uma percepção de que Silveira é o candidato “mais viável” para o mercado e para o centro, o empenho do PT na candidatura de Marília pode ser diluído em prol da governabilidade em Brasília.