Em Minas Gerais, a política é feita de sinais. E o sinal emitido pelo Grupo de Trabalho Eleitoral (GTE) do PT nas últimas horas é um estrondo: Marília Campos é a “Vaga A”. A prefeita de Contagem não apenas recebeu um crachá de pré-candidata; ela recebeu o monopólio da narrativa lulista no estado. Para o ministro Alexandre Silveira, o movimento funciona como um freio de arrumação que o desloca do centro da estratégia para a periferia das negociações.
O PT mineiro, mestre em proteger seu próprio núcleo, deixou claro que a “vaga de Lula” tem dona. A segunda cadeira do Senado, agora, é uma moeda de troca — e moedas, por definição, não mandam no jogo; elas servem para comprar alianças.
O “Fator Abril” e a Armadilha do Calendário
Para Silveira, o tempo deixou de ser aliado para tornar-se um carrasco. Com o prazo de desincompatibilização fixado em 4 de abril de 2026, o ministro de Minas e Energia tem pouco mais de sessenta dias para decidir se abandona a poderosa caneta de Brasília por uma candidatura que já nasce sob a sombra da prioridade petista.
Diferente de Marília, que já opera com o motor da prefeitura em fase de conclusão, Silveira teria de largar o comando de um dos ministérios mais estratégicos do país para entrar em uma disputa onde ele não é o nome principal da base. É o dilema do “Tudo ou Nada”: sair do governo para ser o “Senador B” em uma chapa fragmentada, ou ficar no ministério e preservar o poder real, abrindo mão do sonho da urna.
A Incoerência Partidária: O PSD como Camisa de Força
O maior obstáculo de Silveira, contudo, não é o PT, mas o seu próprio PSD. O partido em Minas, sob a batuta de Cássio Soares e Gilberto Kassab, já se inclinou para o centro-direita no palanque de Mateus Simões.

A tentativa de Silveira de ser o “Senador de Lula” dentro de um partido que marchará contra o PT no governo estadual é uma acrobacia política que o eleitor mineiro raramente perdoa. A oficialização de Marília expõe essa ferida: enquanto ela tem um palanque coeso e verticalizado, Silveira teria de pedir votos em um território onde seus próprios aliados de partido estarão pedindo o contrário. É a receita clássica para a paralisia eleitoral no interior.
O Teto de Vidro da “Caneta Ministerial”
Há quem diga que o poder de agenda do ministério compensa a falta de palanque. É uma meia-verdade perigosa. A “caneta” constrói interlocução com prefeitos e empresários, mas ela tem data de validade. No momento em que Silveira assinar sua saída em abril, ele perde a capacidade de entrega e passa a depender exclusivamente de sua identidade política.
Sem o selo de “prioridade máxima” de Lula — que agora pertence a Marília — e sem a estrutura unificada do PSD mineiro, o ministro corre o risco de tornar-se um candidato “brasílico”: forte nos gabinetes da Capital Federal, mas sem tração no solo das Gerais.
Análise The Política: A oficialização de Marília Campos mudou a geometria do poder em Minas. Ela não é mais apenas uma prefeita bem avaliada; ela é a barreira que obriga Alexandre Silveira a fazer uma escolha de alto risco. No xadrez mineiro, quando o PT carimba uma candidatura, ele não está apenas lançando um nome, está enviando um aviso aos aliados: na mesa do Senado, a cabeceira já está ocupada. Resta saber se Silveira aceitará o assento lateral ou se preferirá manter-se como o poderoso ministro que observa a eleição de longe.