Em Minas Gerais, o Senado sempre foi tratado como o “Panteão” da política — o prêmio de consolação para quem já foi tudo, ou o passaporte para quem quer ser mais. Todavia, para 2026, o que era um prêmio virou um complexo problema de engenharia política. No centro desse curto-circuito está o ministro Alexandre Silveira e uma barreira que atende pelo nome de Marília Campos.
A possível migração de Silveira para o PSB é lida nos bastidores de Belo Horizonte como um movimento clássico de sobrevivência. Acossado pelo PT mineiro e buscando um porto seguro que lhe permita ser “Lula” sem ser “PT”, o ministro encontrou no partido do vice-presidente Geraldo Alckmin o abrigo ideal. Mas o tabuleiro mudou: a prefeita de Contagem, com a força de quem governa uma das maiores máquinas do estado, impôs o que a coluna chama de “Cláusula Marília”.
O Ultimato da Exclusividade
Marília Campos não quer apenas disputar o Senado. Ela exige o que, em marketing, chamamos de branding exclusivo. Sua condição é clara: toparia a jornada desde que fosse a única candidata de Lula ao Senado em Minas.
Aqui reside o xeque-mate: se Lula chancelar essa exclusividade, Silveira perde o chão. Para um ministro de Estado, disputar uma eleição majoritária sem o “carimbo real” do presidente não é apenas um risco; é uma caminhada no escuro. A exigência de Marília funciona, na prática, como um veto branco ao projeto eleitoral de Silveira.
O PSB como Ponte ou como Bote Salva-Vidas?
A flerte com o PSB não é apenas uma troca de legenda; é uma tentativa de Silveira de manter sua viabilidade em um momento onde o PT mineiro cobra faturas altas e oferece pouco espaço de manobra. O PSB oferece o “respeito institucional” e a proximidade com o Planalto sem o desgaste das primárias e das brigas internas da estrela solitária.
Contudo, a teoria da “terceira via governista” esbarra na prática da “unificação” pretendida por Marília. Se a base lulista fragmentar o voto em duas candidaturas ao Senado, corre o risco de entregar as duas vagas para a direita mineira — que já se reorganiza sob a sombra de Mateus Simões e o espólio de Zema.
O Poder Real: Por que o Ministério é um “Porto Seguro”
Diante de um jogo tão caro e de um risco tão assimétrico, a permanência de Silveira no Ministério de Minas e Energia até 31 de dezembro de 2026 deixa de ser um “Plano B” e passa a ser uma estratégia de manutenção de poder real.
Há um pragmatismo quase maquiavélico nessa escolha:
- Orçamento e Caneta: No ministério, Silveira detém o controle de agendas bilionárias, interlocução com o PIB e capacidade de entrega imediata. É poder concreto, palpável, que independe de pesquisa eleitoral.
- O Risco da Urna: O Senado em Minas é uma “moedora de carne”. Com Marília buscando a exclusividade e a base dividida, Silveira poderia terminar a eleição como o “candidato do meio” — nem o preferido da militância, nem o nome natural do centro.
Análise The Política: O Voo do Pássaro de Ferro
Machado de Assis dizia que “a ocasião faz o roubo; o ladrão já nasce feito”. Na política, a ocasião dita a coragem. Se o custo para disputar o Senado for a paz interna da base lulista e a renúncia ao poder executivo, Alexandre Silveira pode muito bem decidir que o ministério é sua melhor trincheira.
A “Cláusula Marília” pode ter o efeito colateral de preservar Silveira no governo, evitando que ele se exponha a uma disputa onde o “fogo amigo” pode ser mais letal que o adversário. No final, o ministro pode descobrir que, em 2026, é melhor ser um aliado poderoso em Brasília do que um candidato isolado nas estradas de Minas.