Se o senador Cleitinho Azevedo decidir disputar o governo de Minas em 2026, a comparação com o fenômeno Pablo Marçal será inevitável. A analogia faz sentido em um ponto central: ambos dominam a arte da hipercomunicação, do corte viral e do engajamento pelo choque.
A hipótese de sua candidatura tem apelo imediato nas redes sociais. Cleitinho sabe gerar a frase de efeito que mobiliza a indignação popular. Mas Minas Gerais, por tradição e complexidade institucional, costuma cobrar algo que o “político-influenciador” nem sempre entrega: plano, equipe e capacidade de operar a máquina pública.
Política como Entretenimento
O que aproxima Cleitinho de um “fenômeno de internet” é o método. Ele opera por frames simples: “o sistema”, “os privilégios”, “o povo contra eles”.
- O Mérito: Isso cria identidade rápida.
- O Risco: Empobrece a discussão. Governar um estado endividado exige mais do que denunciar; exige resolver.
A marca é moralizante. Funciona muito bem como oposição e “fiscal do povo”. O problema nasce quando a candidatura deixa de ser denúncia e vira gestão. O eleitor começa a perguntar: “Ok, o vídeo ficou ótimo, mas o que você faria no dia 1 sentado na cadeira do governador?”
O “Filtro Mineiro”: Onde o barulho trava
Se a comparação com Marçal sugere um outsider que atropela tudo, Minas reage a esse perfil com anticorpos históricos:
1. A Realidade dos 853 Municípios Minas não se governa pelo Instagram. O estado exige capilaridade, conversa com prefeitos, consórcios de saúde e obras em estradas rurais. Sem estrutura partidária e técnica, o candidato vira um “fenômeno urbano” que se perde fora da internet.
2. A Complexidade Fiscal Governar Minas é gerenciar dívida, Regime de Recuperação Fiscal, previdência e repasses. É uma agenda árida, burocrática e chata, que não cabe em um vídeo de 15 segundos no TikTok.
“Quem não entrega gestão vira meme — e Minas não costuma reeleger meme” – The Política.
3. As Perguntas que as Redes Evitam Se entrar na disputa, Cleitinho terá que responder ao que os algoritmos não perguntam:
- Qual é o plano para a Segurança Pública além do discurso punitivista?
- Quem será o Secretário da Fazenda?
- Como vai aprovar projetos na Assembleia sem “negociar com o sistema”?
Conclusão: Fenômeno vs. Governador
A analogia com Pablo Marçal tem um fundo de verdade: barulho e viralização são capitais eleitorais valiosos hoje. Mas, para governar Minas, isso é apenas a porta de entrada.
Sem conteúdo, método e time, a candidatura corre o risco de ter teto curto: chama atenção, sobe rápido e cai quando o eleitor percebe o vazio. Se Cleitinho quiser evitar esse destino, terá de provar que consegue ser gestor, não apenas um comunicador indignado. Porque, em Minas, a diferença é simples: o fenômeno ganha a rede; o governador ganha a realidade.