Minas Gerais inicia o ano político com uma fotografia incomum — e reveladora. No tabuleiro sucessório para o Palácio da Liberdade, apenas uma peça se moveu oficialmente: o vice-governador Mateus Simões (PSD).
Não é pouco. Mas também não é simples.
A ausência de outros nomes na disputa não significa consenso, muito menos fraqueza da oposição. Significa, sobretudo, medo. Minas entra em 2026 sob um silêncio estratégico, onde o vácuo de poder pode redefinir a eleição mais imprevisível da última década.
Mateus Simões corre sozinho (por enquanto)
Simões aparece como o herdeiro natural da máquina de Romeu Zema. Tem discurso técnico e ocupa o vácuo deixado pelos adversários. Mas correr sozinho na largada é uma faca de dois gumes.
- A Vantagem: Ele ocupa o debate, testa narrativas e tenta colar a imagem de “candidato inevitável”.
- O Risco: Quanto mais cedo você se apresenta como favorito, mais cedo vira alvo.
Sem contraditório, o discurso do vice-governador corre o risco de soar arrogante ou desdenhoso — um pecado capital na política mineira, que costuma punir quem senta na cadeira antes da hora.
O silêncio dos outros é cálculo, não fraqueza
O dado mais relevante desta análise não é a presença de Simões, mas a ausência dos rivais. Por que ninguém mais se lançou?
- Rodrigo Pacheco (PSD): Hesita entre o risco de uma disputa majoritária, a espera por uma vaga no STF ou a aposentadoria das urnas.
- Alexandre Kalil (Republicanos): Mede a temperatura para saber se ainda tem capital político após a derrota de 2022. Não é certo que seu partido lhe dê a vaga e pode negociar outras possibilidades.
- MDB: Apesar de ter Gabriel Azevedo “confirmado”, também traz a possibilidade de apresentar Tadeuzinho Leite, presidente da ALMG, como candidato.
- A Esquerda: Travada. O PT mineiro ignora quadros locais fortes (como Marília Campos) à espera de uma ordem nacional que nunca chega.
- Alexandre Kalil: Também ventila a chance de trocar a candidatura ao governo pelo Senado e até a deputado federal.
“Ninguém quer ser o primeiro a errar. Em Minas, errar cedo é carregar rótulo até outubro.” – The Política.
O Perigo do “Já Ganhou”
Minas Gerais não tem hoje um dono. Zema é forte, mas não transfere voto automaticamente. Lula e Bolsonaro têm eleitores, mas não têm palanques definidos.
Esse cenário cria uma armadilha para Mateus Simões. Ao ser o único no palco, ele será o primeiro a ser testado, desgastado e comparado. Quando os adversários finalmente saírem da toca, entrarão com o frescor da novidade e a vantagem tática de bater em quem já está exposto.
Conclusão: O Jogo de Paciência
A eleição de 2026 não será decidida por quem largou na frente, mas por quem souber entrar na hora certa. Mateus Simões fala para uma plateia vazia. Os outros observam, em silêncio, da coxia. Na tradição política de Minas, esse silêncio quase nunca é ausência. É apenas o som de quem está esperando o adversário cometer o primeiro erro.