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O dia em que Lula trocou a Globo por Ratinho no SBT e provocou a fúria de apresentador

Imagine o principal apresentador da TV Globo cancelando, por conta própria e de última hora, uma entrevista agendada com o Presidente da República. Foi exatamente isso que Jô Soares fez. O motivo não foi uma crise institucional ou um escândalo político, mas uma guerra de bastidores da televisão: o presidente havia escolhido falar primeiro com o Ratinho, no SBT.

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O episódio é, na verdade uma das maiores aulas práticas sobre como o Palácio do Planalto enxerga a mídia, o poder e a comunicação de massa.

Um ano de silêncio e o churrasco no Torto

Para entender o choque, é preciso voltar ao contexto. Segundo o Observatório da Imprensa, Lula estava há um ano, três meses e 21 dias no poder sem dar uma única entrevista coletiva formal.

Quando decidiu quebrar o jejum, a expectativa era que escolhesse os grandes telejornais ou revistas de prestígio. Em vez disso, abriu as portas da Granja do Torto para Ratinho, em uma gravação informal que teve até a participação da dupla sertaneja Bruno & Marrone. A mensagem era clara: o presidente queria falar com o “povão”, ignorando os rituais da imprensa tradicional.

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A fúria de Jô na Globo: “Me senti furado”

A escolha caiu como uma bomba na TV Globo. Jô Soares, que já havia entrevistado Lula 13 vezes e tinha uma gravação marcada com o presidente em Brasília, não perdoou a quebra de hierarquia.

Em 2015, ao relembrar o caso em entrevista ao jornalista Mauricio Stycer, Jô foi cirúrgico sobre o cancelamento:

“Não me arrependo. Já havia entrevistado Lula 13 vezes e quando soube que ele ia antes no Ratinho decidi cancelar. Não foi vaidade, me senti furado.”

Na linguagem jornalística, levar um “furo” significa perder a exclusividade de uma notícia. Para Jô, não se tratava de ideologia, mas do prestígio do seu famoso sofá. Anos depois, o próprio Lula brincaria com Ratinho sobre a situação: “Depois o Jô Soares nunca mais me chamou para voltar ao programa dele, porque você fez a entrevista primeiro”.

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Por que esse episódio mudou a comunicação política?

O atrito condensou três tensões gigantescas que explicam a estratégia de mídia do governo até hoje:

  • Massa x Prestígio: Lula provou que preferia o alcance de um comunicador popular (SBT) ao selo de aprovação intelectual da elite (Globo).
  • Quebra de Protocolo: Ao ignorar o “caminho natural” das entrevistas presidenciais, o governo usou a mídia como um terreno de estratégia própria, não como um mero canal de respostas.
  • Guerra de Emissoras: A atitude atingiu diretamente a vitrine noturna mais prestigiada da Globo na época, mostrando que o presidente não tinha receio de contrariar a maior emissora do país.

O que observar hoje

Quando a história voltou à tona nas eleições de 2022 — em um novo encontro entre Lula e Ratinho —, ficou provado que aquele não foi um ato isolado.

O episódio nos ensina a observar os passos atuais de Brasília: quando um político escolhe um podcast de humor em vez de um debate formal, ele está apenas repetindo, com novas ferramentas, a mesma estratégia do “churrasco na Granja do Torto”. Na política, o palco onde você fala importa tanto quanto o que você diz.

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Fhilipe Pelájjio
Fhilipe Pelájjiohttps://moonbh.com.br/fhilipe-pelajjio/
Publicitário, jornalista e pós-graduado em marketing, é editor do Moon BH e do Jornal Aqui de BH e Brasília. Já foi editor do Bhaz, tem passagem pela Itatiaia e parcerias com R7, Correio Braziliense e Estado de Minas. Especialista na cobertura de política, economia de Minas Gerais e de futebol e sua influência econômica e política.