Em meio à rotatividade, o Palmeiras de Abel Ferreira ocupa uma posição cada vez mais incomum. O clube continua disputando a temporada com o mesmo comandante enquanto diversos concorrentes já mudaram uma, duas ou até três vezes de direção técnica.
Isso não significa que estabilidade automaticamente produza vitórias ou títulos. O número revela, porém, uma diferença estrutural: enquanto muitos adversários precisaram interromper trabalhos e iniciar novos ciclos durante o campeonato, o Palmeiras continuou desenvolvendo a mesma base de ideias.
Luís Castro foi a 16ª demissão do Brasileirão
A troca mais recente aconteceu no Grêmio. Luís Castro deixou o clube depois da derrota para o Vasco, e Renato Gaúcho foi escolhido para assumir a equipe até o fim da temporada.
Segundo levantamento publicado pela Folha de S.Paulo sobre a rotatividade na Série A, o Brasileirão já alcançou 16 quedas de treinadores em 2026.
Alguns clubes passaram por mais de uma mudança. Vasco, São Paulo, Botafogo e Chapecoense, por exemplo, já utilizaram três comandantes ao longo da temporada.
Há ainda técnicos que deixaram uma equipe e continuaram no próprio campeonato trabalhando por outra. Renato é um dos exemplos, depois de ter passado pelo Vasco antes do retorno ao Grêmio.
A dança das cadeiras produz um cenário no qual trocar de treinador deixou de ser exceção. Manter o mesmo profissional é que começa a ocupar esse lugar.
Palmeiras atravessou crises sem trocar o comando

A continuidade de Abel não significa ausência de turbulência.
O Palmeiras viveu momentos de pressão durante 2026, sofreu derrotas importantes e teve períodos em que o rendimento defensivo e a dificuldade diante de equipes fechadas colocaram escolhas do treinador em discussão.
O Moon BH mostrou, por exemplo, como um problema contra defesas mais baixas persistiu ao longo de diferentes versões do time. Em setembro, o técnico também precisou lidar com uma suspensão no STJD em um momento delicado da disputa pelo Brasileirão.
Nenhuma dessas situações, porém, abriu uma discussão concreta sobre mudança de treinador dentro do clube.
Isso permite ao Palmeiras enfrentar seus problemas sem precisar simultaneamente ensinar um novo modelo ao elenco.
Continuidade elimina uma variável, não os problemas
É importante separar estabilidade de desempenho.
Manter Abel não garante que o Palmeiras jogará melhor do que equipes que trocaram de técnico. Também não significa que toda substituição seja equivocada, porque existem situações em que resultados, ambiente ou desempenho tornam a continuidade difícil.
A vantagem objetiva está em outro lugar: uma mudança de treinador adiciona variáveis.
Novo profissional significa novas prioridades, diferentes métodos de treino, possíveis mudanças de posição, alterações no desenho tático e reconstrução de relações dentro do elenco.
No Palmeiras, essas referências já existem. Jogadores contratados entram em uma estrutura conhecida, enquanto aqueles que trabalham há mais tempo com Abel reconhecem rapidamente o que a comissão exige.
Isso não resolve automaticamente problemas técnicos. Apenas permite que o clube tente corrigi-los sem começar novamente do zero.
Elenco mudou mais do que o treinador
A permanência de Abel também fica interessante quando comparada às transformações sofridas pelo próprio elenco.
Ao longo dos últimos anos, o Palmeiras vendeu protagonistas, investiu em reforços caros, promoveu jovens e mudou peças importantes em praticamente todos os setores.
Mesmo em 2026, o treinador precisou reorganizar o time após saídas e problemas físicos. O Moon mostrou recentemente como Abel decidiu continuar disputando todas as frentes disponíveis, apesar do risco de desgaste em uma temporada apertada.
A continuidade, portanto, não significou manter o Palmeiras congelado. O que permaneceu foi o responsável por integrar as mudanças.
Dezesseis quedas ajudam a dimensionar a exceção
Quando uma temporada registra 16 demissões antes de terminar, o número deixa de falar apenas sobre os treinadores dispensados.
Ele também destaca quem não precisou fazer a troca.
O Palmeiras aparece nesse grupo ao lado de poucos clubes que preservaram seus trabalhos mesmo atravessando diferentes momentos de pressão. No caso alviverde, a diferença é ainda maior pela duração da relação entre Abel e a equipe.
Isso não determina quem terminará o Brasileirão na frente nem oferece resposta sobre qual modelo é melhor para todos os clubes.
Mostra apenas duas formas muito diferentes de atravessar uma temporada.
Enquanto boa parte da Série A tentou corrigir seus problemas mudando quem comanda o time, o Palmeiras decidiu resolver os seus mantendo a mesma referência. Em um campeonato que já derrubou 16 treinadores, simplesmente não precisar começar de novo virou uma das características mais raras da campanha alviverde.


