Murilo foi escalado como zagueiro na derrota do Palmeiras por 2 a 1 para o Atlético, mas seus números descrevem a atuação de alguém muito mais próximo de um armador.
O camisa 26 participou de 122 ações com a bola, completou 95 dos 107 passes que tentou, encontrou companheiros no último terço em 28 oportunidades e ainda criou três chances. Quando o Palmeiras não conseguia romper a defesa mineira com os meias, a construção voltava aos pés do defensor.
A transformação não parou nos passes. Murilo finalizou quatro vezes, acertou duas conclusões no gol e produziu 0,25 de gols esperados, o chamado xG.
Ele foi o segundo jogador que mais chutou na partida, atrás somente de Jhon Arias, e o atleta do Palmeiras com mais finalizações certas. Também criou mais oportunidades que o colombiano.
Não foi apenas uma liberdade ocasional provocada pelo placar. Dois dias antes do confronto, Murilo havia explicado que a utilização de três zagueiros permitia que ele avançasse e participasse da construção ao lado dos volantes. Contra o Atlético, a fala virou estatística.
Murilo concentrou um de cada seis passes do Palmeiras
O Palmeiras terminou a partida com 669 passes tentados e 593 completados. Murilo respondeu por 107 tentativas e 95 acertos, aproximadamente 16% de toda a circulação alviverde.
Em outras palavras, praticamente um de cada seis passes executados pela equipe passou pelo zagueiro.
A precisão também foi alta. Murilo acertou 88,8%, segundo Ogol das bolas distribuídas, apesar de não ter se limitado aos passes laterais ou curtos entre os defensores. Foram 28 ações de passe no último terço do campo.
Isso significa que quase três em cada dez passes certos do camisa 26 tiveram como destino a região ofensiva.
O Palmeiras controlou 69% da posse e finalizou 22 vezes diante das nove tentativas do Atlético. Mesmo com o domínio territorial, acabou derrotado por 2 a 1 e deixou o campo com a sensação de ter produzido mais do que o placar mostrou.
A atuação de Murilo ajuda a explicar de onde saiu parte desse volume. Sem ser pressionado constantemente pelos atacantes atleticanos, ele avançou metros, aproximou-se dos volantes e tentou encontrar jogadores posicionados entre as linhas
O zagueiro deixou de ser apenas o primeiro passe. Em vários momentos, tornou-se o jogador responsável por escolher onde o ataque começaria.
Nova função também cobra equilíbrio defensivo
O Palmeiras produziu 22 finalizações, acumulou 2,15 de xG e permaneceu durante longos períodos no campo ofensivo. Mesmo assim, sofreu dois gols de uma equipe que teve somente 31% da posse.
Essa contradição expõe o principal risco do modelo.
Quanto mais Murilo avança, maior precisa ser a atenção dos volantes e dos outros defensores para proteger o espaço deixado às suas costas. O Atlético construiu sua vitória com menos bola, ataques rápidos e aproveitamento superior nas oportunidades que encontrou.
A atuação individual do zagueiro não deve ser responsabilizada pelos gols sofridos. O ponto é estrutural: a liberdade de um defensor para participar do ataque exige que o restante da equipe esteja preparado para controlar as transições.
O Palmeiras conseguiu empurrar o adversário para trás, mas nem sempre recuperou a bola antes que o Atlético encontrasse campo para acelerar.
Abel Ferreira terá de preservar a capacidade criativa descoberta em Murilo sem transformar cada perda de posse em uma corrida dos defensores em direção ao próprio gol.

