Ele chegou ao Palmeiras como a maior contratação da história do futebol brasileiro, foi logo ultrapassado por Gerson e Paquetá no ranking dos recordes, marcou 20 gols na temporada de estreia, se machucou duas vezes no tornozelo em 2026 e ficou fora da Copa do Mundo. Vitor Roque tem 21 anos e já viveu mais oscilações de narrativa do que a maioria dos centroavantes experimenta em toda a carreira.
O Palmeiras comprou o “Tigrinho” em fevereiro de 2025 por 25,5 milhões de euros, adquirindo 80% dos direitos do atacante junto ao Barcelona. O contrato vai até dezembro de 2029. O salário é de aproximadamente R$ 2 milhões por mês, no topo da folha salarial do clube. E o valor de mercado atual, segundo plataformas especializadas, está na casa dos 60 milhões de euros, número que o próprio Palmeiras usa como piso em negociações com o futebol europeu.
O que ele custou e o que passou a valer
Quando o negócio fechou, era o mais caro da história do Brasil. Mas os números evoluíram rápido. Em janeiro de 2026, um estudo do CIES Football Observatory colocou o atacante como o jogador mais valioso do futebol mundial fora das cinco grandes ligas europeias, com estimativa de 85 milhões de euros. O Transfermarkt é mais conservador, mas mesmo assim a valorização em relação ao valor pago em 2025 é expressiva.
O Palmeiras adquiriu 80% do atleta. O Barcelona ficou com os 20% restantes e tem direito a uma percentagem sobre o lucro em eventuais vendas acima de 41 milhões de euros. Isso significa que, numa hipotética negociação pelos 60 milhões estabelecidos como piso pelo clube paulista, uma parcela relevante retornaria ao clube catalão. Mesmo assim, o saldo financeiro para o Verdão seria historicamente positivo.
Esse cenário explica por que o Palmeiras não negocia Vitor Roque por qualquer valor. A diretoria já recebeu sondagens do Chelsea e do Manchester United e manteve o preço firme. A estabilidade financeira do clube paulista dá esse poder de barganha, algo que clubes brasileiros raramente tiveram em negociações com a Europa.
Uma temporada de altos e baixos, mas com números reais
A temporada 2026 de Vitor Roque não foi linear. Começou bem, foi interrompida por problemas físicos, voltou, foi interrompida novamente.
No Campeonato Paulista, o atacante foi peça importante na conquista do título. Na final contra o Novorizontino, marcou o gol que garantiu a taça para o Palmeiras mesmo sem estar 100% fisicamente. Esse retorno precoce, porém, agravou o problema no tornozelo esquerdo que já o incomodava desde as semifinais.
No Brasileirão, foram sete partidas e três gols antes da segunda lesão. O índice de 0,98 gols por 90 minutos na Série A coloca Vitor Roque entre os centroavantes mais eficientes da competição quando está em campo. Em 14 dos 18 jogos que o Palmeiras disputou até março, ele esteve presente, com seis gols e uma assistência ao longo do primeiro trimestre.
A cirurgia no tornozelo esquerdo, realizada em maio, encerrou a participação do atacante na temporada antes da pausa para o Mundial. O retorno está previsto para o fim de julho ou início de agosto, coincidindo com a retomada do Brasileirão.
Por que Ancelotti não o convocou

Carlo Ancelotti acompanhou Vitor Roque de perto. O técnico italiano esteve no Allianz Parque para observar o atacante em campo e o manteve no radar para a lista da Copa do Mundo. A não convocação não foi por falta de talento. Foi por falta de saúde.
“A prioridade agora é chamar jogadores que estão 100% fisicamente”, explicou Ancelotti ao anunciar a lista. O próprio treinador sinalizou que, para a relação final do Mundial, estaria disposto a convocar atletas em recuperação, desde que estivessem plenamente aptos até o início da competição. Não deu tempo.
A frustração no Palmeiras foi evidente. Vitor Roque havia retornado ao Brasil exatamente para construir esse caminho, depois das passagens pelo Barcelona e pelo Betis sem regularidade suficiente para entrar no radar de Ancelotti. Em 2025, o atacante marcou 20 gols e voltou a ser convocado pela Seleção. Em 2026, o tornozelo atrapalhou o plano.
O que o torna tão difícil de substituir
Vitor Roque é natural de Timóteo, no Vale do Aço mineiro. Estreou profissionalmente no Cruzeiro em 2021, foi para o Athletico-PR, onde somou 21 gols e oito assistências em 2023, chamou atenção do Barcelona e chegou ao futebol paulista como a peça central do projeto alviverde para os próximos anos.
O que o torna caro e difícil de substituir é uma combinação de atributos físicos e técnicos raros num centroavante de 21 anos: velocidade com bola, poder de finalização com os dois pés, habilidade para jogar nas costas da defesa e pressão alta no campo adversário. Tem 174 cm, o que inicialmente gerou dúvidas sobre seu jogo aéreo, mas compensa com leitura de posicionamento acima da média para a idade.
Em termos táticos, Vitor Roque é um centroavante que Abel Ferreira usa como ponto de pressão mais alto, não apenas como referência de área. Ele persegue a saída de bola adversária, obriga zagueiros a errar sob pressão e, quando recupera a bola em posição avançada, transforma em perigo imediato. Essa função defensiva invisível, que não aparece no placar, é parte do motivo pelo qual o Palmeiras mantém o primeiro lugar no Brasileirão mesmo com o atacante fora das últimas rodadas.
O segundo semestre como o verdadeiro teste
Com o retorno previsto para julho ou agosto, Vitor Roque vai reencontrar um Brasileirão no segundo turno, fase em que as distâncias na tabela começam a decidir quem briga pelo título e quem vai ficando para trás. O Palmeiras chegará a esse estágio em boa posição, mas sem o centroavante mais caro do elenco em campo nas últimas semanas.
A Copa do Mundo de 2026 ficou para 2030. O ciclo com Ancelotti continua, e o técnico não fechou a porta para Vitor Roque na Seleção. Com contrato até 2029 e 21 anos, o atacante tem tempo de transformar o que foi interrompido pela cirurgia numa narrativa diferente no segundo semestre.
O Palmeiras pagou para ter um centroavante de elite por cinco temporadas. As lesões atrasaram o projeto, mas não mudaram o que o clube enxerga no jogador. Quando esteve saudável em 2026, os números foram os de um atacante que justifica cada centavo do investimento.





