A possível venda da SAF do Vasco ganhou, nas últimas semanas, um componente que vai muito além do clube carioca. Segundo apuração do ge, o investidor que hoje aparece mais perto do negócio é Marcos Faria Lamacchia, filho de José Roberto Lamacchia e enteado de Leila Pereira, presidente do Palmeiras.
É isso que transforma a negociação em algo maior do que uma simples troca de controle societário: a operação pode aproximar o entorno da presidente do Palmeiras de um dos projetos mais delicados e caros do futebol brasileiro neste momento.
É importante separar as coisas. Leila não é apontada como compradora da SAF vascaína. O nome na mesa é o de Marcos Lamacchia. Mas, no futebol, a conexão familiar pesa. E pesa ainda mais porque ela ocupa a presidência do Palmeiras até dezembro de 2027.
A partir daí, a discussão deixa de ser apenas financeira e entra num terreno bem mais sensível: governança, influência e possível conflito de interesse dentro do novo sistema de fair play financeiro brasileiro.
O próprio Pedrinho já admitiu que o Vasco está perto de dar “um passo importante” na venda da SAF. O clube conversa com esse investidor há meses, vê avanço real nas tratativas e trabalha com a expectativa de fechar algo ainda em 2026, embora sem cravar prazo. Isso mostra que a negociação deixou de ser apenas hipótese de bastidor e passou a ser um movimento concreto de reconstrução do futebol vascaíno.
Leila Pereira e o conflito com o Palmeiras transforma a venda em tema nacional
A conexão com Leila vira assunto nacional porque o novo modelo regulatório do futebol brasileiro passou a olhar com mais rigor para redes de influência entre clubes. As regras do Sistema de Sustentabilidade Financeira, fiscalizadas pela ANRESF, vedam controle ou influência significativa sobre mais de um clube. E a definição de “influência significativa” não é pequena: inclui poder de veto, nomeação de figuras-chave, acordos de voto e até participação relevante nos direitos de decisão.
É por isso que o caso do Vasco não seria tratado como uma venda comum. A própria agência reguladora já avisou que faria análise rigorosa se o negócio avançar. O problema não está apenas em quem assina o cheque. Está em entender quem, de fato, terá poder real no clube depois da operação. Em outras palavras: não basta dizer que Leila não comprou o Vasco. Será preciso provar que ela também não teria influência indireta num eventual novo desenho societário.
Por isso, as alternativas jurídicas em discussão já mostram o tamanho do desafio. Entre elas, aparecem a suspensão temporária de direitos de veto e voto do comprador enquanto Leila estiver no comando do Palmeiras, uma entrada inicial com participação menor e até a criação de um blind trust. Também existe a possibilidade de um período de transição com Pedrinho participando da governança.
O simples fato de essas saídas estarem em debate já revela que o negócio não é trivial. O próprio rumor sobre interesse dela serve como pressão para tentar aprovar um possível terceiro mandato à frente do clube.
Onde está o “bilionário” dessa história
Mesmo sem um valor final fechado publicamente, a negociação já tem escala bilionária. O Vasco colocou três pilares na mesa: assumir toda a dívida, garantir investimento para um futebol competitivo e aportar dinheiro em estrutura. Só a dívida do clube, fora a parte mais ampla do projeto esportivo e estrutural, já aparece na casa de pelo menos R$ 1 bilhão nas discussões. Isso por si só muda o patamar da conversa.
Além disso, a venda discutida pode envolver até 90% do futebol, mas ainda depende de um ponto decisivo: a solução sobre a parte comprada pela 777, hoje ligada à A-CAP.
A divisão societária atual da SAF mostra o tamanho do imbróglio: 30% pertencem ao clube associativo, 31% estão com a 777/A-CAP, e 39% seguem sob poder do Vasco por decisão judicial, mas ainda em arbitragem. Ou seja, não basta ter comprador. É preciso costurar juridicamente o caminho para entregar o controle.