A pausa do calendário nacional para a Copa do Mundo deixou de ser um período de alívio no Ninho do Urubu para se transformar em um verdadeiro laboratório de crise. Após um primeiro semestre turbulento, marcado por troca de comando técnico e a traumática eliminação para o Vitória na Copa do Brasil, a diretoria do Flamengo estuda utilizar o hiato da Fifa como uma “segunda pré-temporada” fora do país.
O destino favorito para abrigar esse retiro estratégico é a Argentina. A decisão, que passa diretamente pelo crivo do técnico português Leonardo Jardim, tem um objetivo muito claro: corrigir a rota de um elenco milionário que, até aqui, entregou muito volume de jogo, mas pecou fatalmente na eficiência nos momentos decisivos.
O roteiro de fuga: Por que a Argentina venceu Portugal na escolha?
O Flamengo não descarta a Europa, mas a América do Sul ganhou força pela praticidade. Segundo informações iniciais apuradas pelo portal ge e confirmadas pelo Moon BH, o clube trabalha com a possibilidade de realizar parte dos treinamentos em solo argentino ou uruguaio, deixando Portugal como uma alternativa distante e improvável neste momento.
A leitura de bastidores é puramente logística. A primeira etapa da pausa será de puro descanso. Como a temporada de 2026 foi antecipada e espremeu as férias tradicionais de janeiro, a diretoria rubro-negra liberará os atletas por cerca de 15 dias logo após o duelo contra o Coritiba, marcado para 30 de maio, no Maracanã.
Quando o grupo se reapresentar, uma viagem para a Europa exigiria um esforço logístico, adaptação de fuso horário e um desgaste de deslocamento que a comissão técnica quer evitar. A Argentina, por outro lado, oferece:
- Logística Facilitada: Voos curtos e fuso horário alinhado com o Rio de Janeiro.
- Custo Controlado: Uma operação em peso ou dólar mais favorável do que em euros.
- Competitividade Real: A possibilidade de agendar amistosos contra clubes argentinos, que entregam a intensidade física e o “clima de Libertadores” que o time enfrentará no segundo semestre.
A pressão no gabinete de Bap

Há também um peso político irrefutável nessa excursão. O presidente Luiz Eduardo Baptista (Bap) assumiu um risco altíssimo ao demitir Filipe Luís para trazer Leonardo Jardim, prometendo publicamente a busca pela Tríplice Coroa. Com a queda precoce na Copa do Brasil, essa promessa já ruiu.
Uma intertemporada estruturada no exterior ajuda a sustentar a narrativa de que a gestão possui um método de trabalho sério. Não basta apenas trocar de treinador; é preciso oferecer as condições físicas e táticas para que o português implemente suas ideias de forma definitiva para o Brasileirão e a Libertadores.
O pesadelo tático de Jardim: Um time esfacelado pela Fifa
A grande ironia dessa intertemporada é que Leonardo Jardim terá um centro de treinamento de ponta, mas não terá seus principais jogadores. O Flamengo é hoje a maior vitrine de seleções da América do Sul e corre o sério risco de ceder até 12 atletas para a Copa do Mundo na América do Norte.
O mapeamento de convocações do Moon BH ilustra o tamanho do rombo no elenco durante os treinos:
- Seleção Brasileira: Danilo, Alex Sandro, Léo Pereira, Léo Ortiz, Lucas Paquetá, Pedro e Samuel Lino (todos na pré-lista de Ancelotti).
- Uruguai: Varela, Arrascaeta e De la Cruz.
- Colômbia: Carrascal.
- Equador: Gonzalo Plata.

Como se treina um padrão tático coletivo quando o seu time titular está espalhado por outro continente? A função da intertemporada muda drasticamente. Jardim não poderá ensaiar o “time ideal”. Seu trabalho será focado em recuperar atletas clinicamente desgastados, lapidar os reservas e criar alternativas táticas sólidas para quando os “selecionáveis” retornarem.
O maior medo do departamento de futebol é o clube voltar da Copa completamente fragmentado: uma parte do elenco treinada, uma parte vindo de férias, outra parte voltando exausta do Mundial e, invariavelmente, alguns retornando com lesões musculares.
A ascensão obrigatória da base como solução
Sem suas estrelas, o Flamengo será obrigado a olhar para o próprio quintal. A comissão técnica vê o acampamento na Argentina como a janela ideal para avaliar e integrar os garotos das categorias de base ao time principal.
Isso deixou de ser um projeto de desenvolvimento para virar uma necessidade emergencial de sobrevivência. Se nomes como Pedro, Paquetá ou Arrascaeta voltarem fadigados da Copa, o calendário brasileiro não perdoará. A intertemporada servirá como um laboratório de fogo: Jardim precisa descobrir rapidamente quais garotos do sub-20 conseguem suportar a pressão física e a intensidade tática do futebol profissional para compor a rotação nas rodadas de julho.
Os três problemas que o Flamengo precisa resolver

Longe dos holofotes da imprensa carioca, Leonardo Jardim terá uma lousa com três problemas urgentes para solucionar em Buenos Aires (ou Montevidéu):
- A Maldição do Volume sem Gol: A queda para o Vitória escancarou o calcanhar de aquiles do time. O Flamengo domina a posse, amassa o adversário, mas sofre para balançar as redes. O foco será melhorar a ocupação de área e a agressividade no último passe.
- Recomposição Defensiva: Com um esquema que utiliza laterais ofensivos e pontas muito abertos, a equipe costuma se partir ao meio nas transições adversárias. A linha de volantes precisa de ajustes de cobertura.
- Gestão Clínica Rigorosa: A pausa é o oásis perfeito para a equipe de fisiologia. Jogadores experientes como Alex Sandro e Danilo precisam de manutenção. O caso mais sensível é o de Arrascaeta, que vem de uma complexa cirurgia na clavícula e precisa de um retorno aos gramados sem atropelos.
A primeira partida pós-Copa deve acontecer entre os dias 22 e 23 de julho, fora de casa, contra a Chapecoense. Até lá, o Flamengo precisará provar que a viagem para a Argentina não foi apenas um “resort de luxo”, mas a fundação tática que salvou o ano de 2026 do fracasso total.


