O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista (Bap), voltou a colocar o clube no centro de um debate que passa longe do gramado do Maracanã. Nesta semana, o mandatário rubro-negro mirou sua artilharia para os rivais. Ele criticou publicamente o empréstimo de R$ 80 milhões da Crefisa ao Vasco e atacou o modelo de SAF do Botafogo após o pedido de recuperação judicial alvinegro.
Ao defender “transparência e controles mais duros”, Bap reacendeu um questionamento incômodo na Gávea. A dúvida é se um presidente que comanda a maior força econômica e popular do país ganha ou perde ao descer frequentemente para a trincheira dos embates públicos com rivais.
A escalada do atrito: Palmeiras, Vasco e Botafogo
A postura recente não é um fato isolado, mas sim um modelo de comunicação em consolidação. A lista de atritos liderados pela presidência rubro-negra acumula episódios de alta voltagem:
- Palmeiras: O choque começou na crise estrutural da Libra, quando Bap disparou que “a Libra é palmeirense”, criticando a influência de Leila Pereira. A tensão escalou para uma guerra institucional e cruzada de versões quando o Flamengo protocolou na CBF um pedido pelo fim dos gramados sintéticos.
- Vasco: O embate saiu do nível administrativo para o tom estritamente pessoal. Após questionar o empréstimo da Crefisa, Bap ouviu de Pedrinho, presidente vascaíno, que sua postura era “arrogante e prepotente”. Ele o acusou de colocar em dúvida o caráter de atletas e da comissão técnica cruzmaltina.
- Botafogo: A crítica focou no modelo de SAF, exigindo punições a investidores que não cumprem compromissos. Isso veio em uma alfinetada direta à gestão de John Textor e ao pedido de recuperação judicial.
O abismo entre a Gávea e o modelo europeu de comunicação
A análise mais fria desse comportamento revela um grave erro de calibragem. O Flamengo possui o maior peso político do Brasil. Isso daria ao seu mandatário o luxo estratégico de escolher quando falar e, principalmente, em que nível falar.

Quando olhamos para a cartilha dos líderes do futebol mundial, o contraste com Bap é gritante. Dirigentes de elite escolhem arenas institucionais para discursar, blindando a marca do clube:
- Real Madrid: Florentino Pérez usa a Assembleia Geral para pautar o mercado europeu, falando sobre unidade, governança e valorização do patrimônio.
- Bayern de Munique: Herbert Hainer foca sua comunicação na estabilidade financeira e na responsabilidade social da instituição bávara.
- Manchester City e PSG: Seus mandatários abrem relatórios anuais destacando o fortalecimento de longo prazo e as receitas recordes. Dessa forma, passam ao largo de crises dos rivais locais.
O “apequenamento” institucional e o varejo da provocação
Apontar um risco de “apequenamento” não significa dizer que o Flamengo perdeu sua força esportiva, econômica ou o peso da sua camisa. O problema mora na percepção de marca a longo prazo.
Quando um gigante com faturamento bilionário entra de cabeça em discussões reativas e bate-bocas sobre empréstimos alheios ou crise financeira dos vizinhos, ele abandona a cadeira de “liderança de sistema”. Assim, passa a assumir o papel de ator de disputa cotidiana.
Parte da arquibancada certamente enxerga firmeza e defesa ferrenha das cores do clube nesse comportamento. Contudo, para o mercado e para a consolidação internacional da marca, a postura frequentemente soa como um ruído desnecessário. Ao escolher o varejo da provocação, Bap transforma o Flamengo em personagem secundário de agendas laterais. Assim, distancia a comunicação rubro-negra da liturgia que o tamanho do clube exige.
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