A demissão de Martín Anselmi abriu mais uma busca por treinador na era SAF. Mas o ponto mais interessante não é apenas quem entrou no radar. É o que essa lista diz sobre a cabeça de John Textor. O Botafogo ainda não iniciou entrevistas, trabalha com um banco de dados abastecido desde o fim de 2024.
O time faz uma curadoria prévia dos nomes com base em características e estilo de jogo antes de enviar as opções ao dono da SAF. Entre os técnicos bem avaliados aparecem Vojvoda, Hernán Crespo, Fernando Diniz e Tite.
Isso já ajuda a desmontar a ideia de que o clube procura simplesmente um “europeu” para mudar tudo. A lista vazada não aponta para uma escola única. Ela mistura perfis, nacionalidades e trajetórias diferentes. O que existe ali não é uma busca por passaporte. É uma busca por um treinador que devolva coerência a um projeto que, para Textor, saiu do trilho com Anselmi.
E esse detalhe importa. Anselmi caiu não porque representava uma ruptura com o modelo da SAF, mas porque, na leitura de Textor, deixou de entregar o que havia prometido: flexibilidade. O entendimento interno era de que houve improvisações em excesso, apego grande às próprias ideias e regressão defensiva. Ou seja, o problema não foi ter um projeto. Foi ter um projeto sem ajuste fino.
O Botafogo não parece buscar um anti-Anselmi
Se o clube quisesse jogar tudo fora, a sinalização provavelmente seria outra. Talvez um nome de perfil reativo, menos autoral, mais focado apenas em organização imediata. Mas não é isso que a shortlist sugere.
Vojvoda, Crespo, Diniz e Tite têm diferenças grandes entre si. Mesmo assim, há um ponto em comum: todos carregam uma ideia forte de jogo e não são técnicos de futebol puramente circunstancial. Uns são mais verticais, outros mais posicionais, outros mais controladores. Mas nenhum deles representa abandono completo de identidade.
Por isso, a leitura mais plausível é a de que o Botafogo procura continuidade de ambição, não continuidade literal de trabalho. Quer seguir com um time que tenha proposta, método e personalidade. Só não quer repetir a sensação de rigidez que cercou Anselmi.
Na prática, isso significa trocar menos o projeto e mais a forma de executá-lo. Textor parece mirar um treinador capaz de manter o Botafogo agressivo e protagonista, mas com maior capacidade de adaptação ao elenco, ao calendário e ao jogo real.
O tal “perfil europeu” talvez seja mais de processo do que de nacionalidade
Se existe um traço mais “europeu” nessa busca, ele aparece mais no método do que no nome. O Botafogo montou um sistema de avaliação, alimenta um banco de dados há meses e usa pontuação por estilo e características para filtrar candidatos. Isso é menos improviso e mais processo.
Ao mesmo tempo, a decisão final continua concentrada em Textor. E isso revela outro lado da história: por mais que o clube tente profissionalizar a triagem, o veredito ainda passa pela convicção do dono da SAF. Foi assim com Anselmi. E será assim de novo agora.
A lista vazada também mostra um Botafogo menos preso a rótulos do que parece. Diniz e Tite, por exemplo, enfraquecem a tese de uma procura puramente “europeia”. O que a direção parece querer é um técnico com autoridade, repertório e capacidade de reorganizar o time sem desmontar totalmente a filosofia que Textor vê como parte da identidade do clube. Essa é uma inferência a partir da diversidade dos nomes citados e dos motivos da queda de Anselmi.
Então o Botafogo quer continuidade ou mudança?
A resposta mais honesta é: nem uma continuidade cega, nem uma revolução completa.
O Botafogo busca um treinador que preserve a ideia de time dominante, mas que corrija os excessos do último ciclo. Quer alguém que continue o projeto no atacado, mas mude bastante no varejo. Ou seja, menos ruptura de filosofia e mais correção de rota.